domingo, 8 de setembro de 2013

POST DE HONRA (atrasado) - Bayern de Munique 1995/97: camisa nova, sonho antigo.

Olá galera.
Como vocês podem ver, ando bastante atarefado aqui na Alemanha, e por isso está me restando pouco tempo para atualizar o blog.
Falando em Alemanha, na sexta da semana passada pudemos presenciar uma revanche histórica. Depois de ter perdido a final da Liga dos Campeões de 2011/12 em casa, depois de sair ganhando e acabar perdendo nos pênaltis, o Bayern de Munique, jogando em Praga (Rep. Tcheca), teve a chance de dar o troco na mesma moeda no Chelsea pela Supercopa da Uefa, algoz daquela ocasião. Dessa vez foi o time inglês que saiu na frente (por duas vezes), levando o gol do empate no último minuto da prorrogação. E acabou  perdendo nos pênaltis, exatamente onde havia saído triunfante na outra vez.

Sem dúvida nenhuma, o Bayern de Munique de 2013 é um time que já estampou o seu nome na História do Futebol, já com uma Quádrupla Coroa (Bundesliga, Copa da Alemanha, Liga dos Campeões e Supercopa UEFA - ainda falta o Mundial de Clubes fim do ano, que pode ser o 3º da história do time). Munique está em festa (comprovado pessoalmente por mim) com o time treinado por Pep Guardiola e dos astros Neuer, Dante, Lahm, Alaba, Schweinsteiger, Ribéry, Kroos, Götze, Robben, Müller, Mandzukic e muitos outros jogadores de nível extraordinário.

Mas hoje, apesar de conter na minha Mantoteca a camisa que fez história na Tríplice Coroa de 2012/13, pego outra camisa da coleção, de uma época onde o Bayern corria atrás para voltar a ser grande como já havia sido nos tempos de Sepp Maier, Gerd Müller e do Kaiser Franz Beckenbauer.


A história das camisas do Bayern de Munique é algo muito peculiar. Esse uniforme de 1995 é um exemplo claro disso. Nos últimos anos é que o time bávaro manteve o padrão de usar apenas uniformes titulares com as cores vermelha e branca (ou dourado, como na temporada passada). Mas nem sempre foi assim.

O Bayern foi fundado com uniforme azul-claro, uma das cores da bandeira da Baviera. Mas como essa era também a cor do arquirrival 1860 München, a camisa titular virou branca com detalhes em grená na gola e no punho das mangas. A tradicional camisa vermelha era apenas usada como uniforme reserva.

Abaixo uma foto do museu do Bayern, mostrando uma réplica da 1a camisa do time, lado a lado com a camisa usada entre 2011 e 2013



A partir dos anos 70, virou o "samba do crioulo doido". O Bayern começou a usar uniformes titulares diferentes, como o listrado verticalmente em branco e azul; o uniforme branco com duas listras verticais, uma azul e outra vermelha, na parte direita; um uniforme branco com as listras da Adidas em vermelho e, enfim, o uniforme todo vermelho. Na mesma época, tivemos como uniformes alternativos uma camisa vermelha com listras verticais brancas finas e uma outra camisa listrada em vermelho e azul, exatamente como a camisa titular de 1995. Abaixo, fotos das camisas que o Bayern usou como 1o uniforme entre os anos 60 e 70, os anos de ouro do clube:



Nos anos 80, a única esquisitice do time de Munique foi adotar um uniforme 2 idêntico à camisa titular da Seleção Brasileira. Tudo isso por causa de uma superstição de que o Bayern nunca vence o Kaiserslautern fora de casa, e realmente era verdade. Mesmo quando o Bayern estava vivendo os seus anos de ouro lá na década de 70, sempre quando jogava com o outro time de vermelho, do oeste alemão, costumava apanhar feio. Por coincidência (ou não), quando usou um uniforme igual ao do Brasil (camisa amarela com detalhes verdes, calções azuis e meias brancas), venceu depois de anos. E o amarelo voltaria a ser usado em outras ocasiões. Mas só como suplente. O uniforme titular permaneceu vermelho por toda a década.

Em 1991 a Adidas lançou sua linha "Performance", com a logomarca que é utilizada até hoje (a das 3 listras cortadas em forma de triângulo). E mais uma mudança aconteceu no uniforme do Bayern: 3 listras azuis desciam do ombro da camisa que antes era só vermelha com detalhes brancos. E assim foi até 1995, quando resolveram ressuscitar o uniforme reserva do começo da década de 1970, mas agora como camisa titular: o Bayern agora definitivamente não era mais vermelho e branco (Rot-Weiss). Era vermelho e azul.


E 1995 estava sendo um triste ano para o Bayern. O Borussia Dortmund e seu uniforme amarelo-fluorescente consagravam-se campeões da Bundesliga. Na Liga dos Campeões, o time bávaro alcançou as semifinais, mas foi massacrado pelo Ajax de Louis Van Gaal (treinaria o próprio Bayern 14 anos depois), o finlandês Litmanen, e jovens holandeses como Kluivert, Davids e o atual maestro do Botafogo Clarence Seedorf. O Bayern levou de 5x2 jogando em pleno Estádio Olímpico de Munique. E o Ajax seria Campeão Europeu pela 4a vez e Bicampeão Mundial no fim daquele ano, contra o Grêmio.


Já usando o seu novo uniforme, o Bayern, contando com jogadores como o goleiro Oliver Kahn, o meia Mehmet Scholl, além de Jürgen Klinsmann e Lothar Matthäus, não foi capaz de segurar o Dortmund novamente na Bundesliga. Terminou em 2o lugar, 6 pontos atrás do time do Vale do Ruhr, que consagrou-se bicampeão. Na Pokal (Copa da Alemanha), o Bayern caiu logo na 2ª rodada para o Fortuna Düsseldorf, jogando fora de casa, e perdendo por 3x1.


A sorte do Bayern é que na temporada 94-95, mesmo tendo feito uma campanha pífia, o time conseguiu pegar a última vaga para a Copa UEFA (atual Europa League). E estreou nela eliminando o Lokomotiv Moscou, após perder em casa por 1x0, os bávaros não se intimidaram e golearam os russos no próprio estádio: 5x0



O próximo rival do Bayern era o frágil Raith Rovers, da Escócia. Time que havia conseguido superar Celtic e Rangers na temporada anterior, ganhando o título de campeão escocês. Mesmo assim, não conseguiu passar para a fase principal da Liga dos Campeões e acabou sendo rebaixado para a Copa UEFA. E encontrou o tradicional Bayern, que venceu na Escócia (2x0) e em Munique (2x1).

Se o Raith Rovers era um calouro, o Benfica é um veterano de longa data. O tradicional time português era o rival do Bayern na 3a fase da Copa UEFA. Mas 4 gols de Klinsmann já foram suficientes para deixar o veterano parecendo um calouro no 1o jogo em Munique, que terminou 4x1. E nem o gol do brasileiro Valdo no jogo de Lisboa foi o suficiente para evitar mais um passeio do time alemão: 3x1.


Nas quartas-de-final, outro time de vermelho bicampeão europeu esperava o Bayern. Mas esse vinha da Inglaterra, e embora suas duas Ligas dos Campeões conquistadas consecutivamente em 1979 e 1980 tivessem colocado o seu nome na história do futebol, o Nottingham Forest não era mais assustador como foi naqueles tempos de Brian Clough. O jogo em Munique foi apertado, com o time inglês empatando um minuto depois do gol de Klinsmann, mas com Scholl garantindo a vitória aos 44 do 1o tempo. Em Nottingham, um passeio do Bayern: 5x1. Agora era hora de encarar as semifinais do torneio


O jogo contra o Barcelona era como se fosse a final antecipada do torneio. Na outra chave da semi-final, jogavam o Sparta Praga e o Bordeaux (que tinha Zinedine Zidane), mas nenhum dos dois assustava tanto quanto o bicho-papão catalão, vivendo ainda resquícios da sua era de "Dream Team", quando ganhou a Liga dos Campeões em 1992 e foi soberano no Campeonato Espanhol de 91 até 94. O jogo de Munique foi uma pedreira, exatamente como se esperava. O Barcelona saiu na frente aos 14 do 1o tempo, mas o Bayern precisou apenas de 5 minutos para virar o jogo, entre os 7 e 12 do 2o tempo. Mesmo assim, o romeno Hagi ainda empatou o jogo aos 32 minutos, deixando o Barça em vantagem para o jogo no Camp Nou.


Mas a vantagem do Barcelona foi embora logo aos 40 do 1o tempo no 2o jogo, com o gol de Babbel. E o Bayern ainda ampliaria o placar, aos 39 do 2o tempo. O Barça ainda tentaria uma reação tardia aos 44, mas depois disso não houve mais nada. Bayern de Munique na final, com chances claras de ganhar um título internacional importante 20 anos depois de ter vencido o Cruzeiro na final do Mundial de Clubes.

O rival seria o Bordeaux de Zidane, e também de Bixente Lizarazu, outro francês que seria ídolo do Bayern de Munique nos anos seguintes. Naquela época, a Copa UEFA era decidida em dois jogos, na casa de cada time. E o jogo decisivo foi marcado para a França. Sabendo disso, o Bayern venceu o jogo de ida por 2x0 em Munique, gols de Helmer e Scholl.


No jogo de volta, o Bayern estreava um uniforme familiar: como o Bordeaux jogava com cores semelhantes ao uniforme titular bávaro, o time alemão criou uma nova versão da camisa branca utilizada nos anos 70, a que tinha duas faixas verticais, uma vermelha e outra azul (uniforme que procuro para a Mantoteca). Usando uma camisa que remetia a era de ouro do clube, o Bayern não teve dificuldades de vencer o 2o jogo, ganhando por 2x0 até os 31 minutos do 2o tempo, quando o time da casa descontou. Klinsmann faria o 3o gol, o gol do título, dois minutos depois, e a vitória por 3x1 daria o troféu da Copa UEFA para o Bayern, encerrando o jejum de duas décadas sem títulos internacionais.

Abaixo, a foto do modelo de uniforme utilizado na final.




O título da Copa UEFA salvaria a temporada do Bayern, que continuaria a jogar com seu uniforme listrado na temporada seguinte (costume que o Bayern manteve até 2009, quando trocou de uniforme titular apenas uma temporada depois). O vice-campeonato de 96 na Bundesliga fez com que o Bayern jogasse novamente a competição, mas dessa vez o final foi trágico. Logo na primeira rodada, a eliminação para o Valencia, depois de levar 3x0 na Espanha. A vitória por 1x0 em casa seria inútil (4 anos depois o Bayern se vingaria do time espanhol em alto estilo, mas isso é outra história)

Na Pokal 1996-97, vitórias sobre rivais tradicionais como o Borussia Mönchengladbach fora de casa (2x1), Werder Bremen em casa (3x1), até ser eliminado pelo Karlsruhe por 1x0, jogando na cidade do time de azul.

Na Bundesliga, era hora de acabar com a soberania do Borussia Dortmund, que vinha com um elenco forte buscar o tricampeonato. E com 71 pontos, o Bayern voltava a vencer o título nacional. O Bayer Leverkusen ficou apenas 2 pontos atrás e o Borussia Dortmund ficou em 3o, com 8 pontos atrás.

Abaixo, uma foto de um dos jogos entre Bayern e Dortmund pela Bundesliga 97-98, a discussão entre 2 craques alemães: Matthäus e Möller


Porém, o título do Bayern seria ofuscado por dois outros alemães. Pela Copa UEFA, o Schalke 04, que não ganhava algo relevante desde 1958, quando ganhou seu último campeonato alemão (até hoje nunca mais voltou a vencer esse título), consagrava-se campeão continental pela primeira e única vez.

E ainda havia coisa pior. Jogando a final em pleno Estádio Olímpico de Munique, o Borussia Dortmund levantava o título de Campeão da Liga dos Campeões pela primeira vez em sua história. Em cima da forte Juventus, que defendia o título. Ainda igualaria o time bávaro ganhando no fim daquele ano o Mundial de Clubes, e por coincidência, em cima do mesmo Cruzeiro que perdeu em 1976 para o Bayern.

A promessa para a temporada 1997-98 era azul. Literalmente. Se o uniforme listrado utilizado nos últimos dois anos pelo Bayern não tinha muito a ver com sua história, o que dizer do uniforme azul-marinho com detalhes vermelhos utilizado como titular a partir de 1997 até 99? Essa foto é de um exemplar da Mantoteca, que está a venda por não ser do meu tamanho (alguém interessado?)


Bem, por hoje encerro este post de honra em homenagem a mais um título do Bayern de Munique, lembrando de um tempo onde as coisas eram bem mais difíceis. Hora de voltar para a realidade, para o atual Bayern que veste vermelho e joga um futebol bonito. Abraços e até a próxima!

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Alemanha 1994/95 - Os últimos suspiros de uma geração vitoriosa.

Olá acompanhantes da Mantoteca.
Como já devem ter percebido, estou há bastante tempo sem postar. Isso devido à minha mudança para a Alemanha, onde viverei por um tempo. Agora, enfim, já em terras estrangeiras, poderei voltar a atualizar o Blog constantemente.

E como o assunto é Alemanha, o tema não poderia ser outro. Hoje, diretamente da Mantoteca, falarei de uma relíquia que consegui com um amigo: o uniforme da Seleção Alemã de 1994.


Como podem perceber, este uniforme é a evolução dos seus dois antecessores, duas camisas que também têm muita história para contar. A começar pelo uniforme de 1988, que ficou mais conhecido dois anos depois pelo simplório motivo mostrado na foto abaixo:


Lothar Matthäus e o troféu da Copa do Mundo, em 1990. A Seleção Alemã, comandada pelo "Kaiser" Beckenbauer (junto ao Zagallo, o único que ganhou Copa como treinador e jogador), mesmo desacreditada depois de ter parado na Holanda de Van Basten, Gullit e Rijkaard na Euro de 1988 (que foi disputada na própria Alemanha Ocidental), conseguia superar a Argentina de Maradona na final, vingando a derrota de 1986, e conquistando o Tricampeonato, empatando então com Brasil e Itália.

 Em Novembro de 1989, o famigerado Muro de Berlim era derrubado e as fronteiras entre Alemanha Ocidental e Oriental foram reabertas depois de longos 28 anos. Era dado o primeiro passo para a Reunificação Alemã, que se concretizaria quase um ano depois, em 3 de Outubro de 1990. A Copa do Mundo ocorreu na vizinha Itália, em Junho, ainda com as duas Alemanhas divididas. A Seleção de 1990 foi a última que representou apenas um lado do país, porém, num momento muito especial de sua História.

O uniforme criado em 1988 e utilizado até 1991, já com a Alemanha reunificada, na minha opinião, é uma das indumentárias de futebol mais bonitas de todos os tempos. Foi o primeiro uniforme alemão com detalhes bem visíveis de sua bandeira tricolor (que tem uma combinação de cores perfeita: preto, vermelho e dourado), antes as cores da bandeira ficavam limitadas no máximo aos punhos da camisa, em detalhes menores. É um uniforme que um dia ainda conseguirei colocar na minha Mantoteca.



Em 1992, às vésperas de uma nova Euro, na Suécia, a Alemanha fez um novo uniforme, também com detalhes remetendo as 3 cores da bandeira, só que agora apenas nas mangas. Foi também o primeiro uniforme alemão com o logotipo atual da Adidas, que era utilizado na época em camisas especiais da marca, as chamadas "Adidas Performance".



A Alemanha em 1992 chegava mais uma vez na final. Porém, o desfecho na Euro foi diferente de 1990. Surpreendidos pela Dinamarca (que entrou de convidada na competição, após a suspensão da Iugoslávia pela UEFA devido à eclosão da Guerra dos Balcãs), perderam o jogo final por 2x0. Mesmo assim, a Seleção Alemã ainda era favorita ao título de 1994, para o terror do Brasil, que vivia má fase e ainda corria o risco de ver outra seleção assumindo o posto de mais vitoriosa do Mundo.

Um destaque para o também surpreendente uniforme da Dinamarca campeã de 1992. Também procurado pela Mantoteca:


Como na época (regulamento que valeu até 2002) o campeão da Copa anterior classificava-se diretamente para a Copa seguinte, a Alemanha não teve que se preocupar com as Eliminatórias Europeias, onde gigantes como Inglaterra e França sucumbiram. O time germânico apenas realizou amistosos enquanto se preparava para desembarcar na América do Norte em 1994.

E então, chegou o ano de mais uma Copa do Mundo. A primeira Copa em que a Alemanha voltaria a disputar depois da Reunificação. E para esse momento especial, mais um belo uniforme foi confeccionado. Aquele que foi feito para ser o uniforme do Tetracampeonato. E então começamos a contar as histórias que essa camisa alemã tem para dizer.


A estreia dessa camisa não poderia ter sido de forma melhor: vitória de 2x1 em cima da rival e carrasca histórica Itália num amistoso disputado em casa, em Março de 94. E foi de virada, após sair perdendo por 1x0, gol de Dino Baggio, Klinsmann marcou duas vezes e consagrou a vitória.


O próximo compromisso alemão foi no calor dos Emirados Árabes, contra a seleção local. Vitória fácil por 2x0. Porém, o susto veio um mês antes do início da Copa, em Maio. Contra a Irlanda, jogando em casa, na cidade de Hannover, uma derrota por 2x0. Era hora de acender o sinal amarelo.


O fatídico mês de Junho chegou. E enquanto a hora de embarcar para a Terra do Tio Sam não chegava, os alemães faziam mais dois amistosos. O primeiro, uma fácil vitória sobre a vizinha Áustria jogando em Viena: 5x1. O segundo jogo, já em território norteamericano, um triunfo de 2x0 sobre o escasso futebol do Canadá, em Toronto.


E o momento tão aguardado chegou. 17 de Junho de 1994. Contando com vários remanescentes do Tri de 1990: o goleiro Illgner, Andreas Brehme (autor do gol do título de 90), Kohler, Buchwald, Möller, Riedle, o eterno meia Lothar Matthäus (que foi jogar sua 4a Copa - e ainda jogaria em 1998), o goleiro reserva Köpke, Rudi Völler, Berthold e, por fim, o artilheiro Klinsmann. Um destaque daquele time era o jogador Mathias Sammer, atacante que defendeu a Alemanha Oriental e naqueles dias se destacava no Borussia Dortmund e na Seleção Alemã Reunificada. E também destacam-se o meia Stefan Effenberg e o terceiro goleiro Oliver Kahn, estreantes em Copas, ambos com 25 anos na época.

O treinador não era mais Beckenbauer, que em 1994 assumia a presidência do Bayern de Munique. Desde o final da Copa de 1990, o treinador da Seleção Alemã era Berti Vogts, até então interino do Kaiser. Tentando manter o ritmo que consagrou o Tricampeonato, a Alemanha chegava aos Estados Unidos pronta para buscar o Tetra.

Até 2002, a seleção campeã do Mundo na outra edição fazia o jogo inaugural da Copa. A partir de 2006 é que o anfitrião começou a dar o pontapé inicial. Em 1994, a Alemanha, na sua condição de campeã do Mundo, estreava no calor do verão de Chicago contra uma surpresa vinda da América do Sul. A Bolívia, de jogadores como "El Diablo" Etcheverry, que havia deixado o tradicional Uruguai para trás nas Eliminatórias Sul-americanas.

Aquela Bolívia ficou conhecida por ser forte mesmo jogando fora da altitude de La Paz. Mas não era o bastante para parar os até então campeões do Mundo. Klinsmann deixou sua marca aos 16 do 2o tempo, e já no fim do jogo, aos 37, o craque boliviano Etcheverry ganhava destaque. Não por ter feito um gol, ou uma jogada bonita. Mas por ter sido expulso. Fim de jogo, e confirmado o favoritismo alemão. 1x0.


O próximo jogo em Chicago prometia ser mais difícil. A sempre complicada Espanha, dessa vez vindo com a base que foi campeã olímpica em 1992 e boa parte daquele "Dream Team" do Barcelona do início dos anos 90, contendo jogadores como o eterno goleiro Zubizarreta, Hierro, Sergi, o atual técnico do Bayern de Munique Pep Guardiola, Luis Enrique e Bakero. Como previsto, foi um jogo complicado. A Espanha largou na frente, aos 14 do 1o tempo, com gol de Goikoetxea. Mas, logo no começo do 1o tempo, Klinsmann empatou a parada. E terminou 1x1.


De Chicago, hora de partir para o Texas. Em Dallas, o terceiro jogo da fase de grupos seria realizado. Aquele que foi registrado como o jogo mais quente de uma Copa do Mundo: a temperatura no gramado atingiu mais de 40 graus. Sob um intenso calor, a Seleção Alemã jogou o suficiente para abrir 3x0 contra a fraca Coreia do Sul. E mesmo assim ainda levaria 2 gols. Alemanha classificada para o mata-mata como líder de seu grupo. Depois de três jogos que não provaram muita coisa.


Na fase eliminatória da Copa do Mundo, os alemães voltavam para Chicago e encaravam um adversário perigoso. A Bélgica, que possuía em seu plantel jogadores como o excelente goleiro Preud'homme e o meia Enzo Scifo. Na Copa anterior, a Bélgica só caiu na prorrogação contra a Inglaterra nas oitavas de final. E nessas oitavas de 1994, era hora da Alemanha passar pela forte seleção da terra dos Smurfs e do Tintin.

O jogo começou movimentado. Völler abriu o placar aos 6 minutos da etapa inicial, mas Grün empatou dois minutos depois. Eis então que o matador Klinsmann, 3 minutos depois do empate, desempatou novamente a partida. A Alemanha só não fez mais gols pois o goleiro Preud'homme fez uma atuação de gala, o que possibilitou ao time belga brigar com firmeza. Mas Völler, novamente, aos 40 do 1o tempo, fez mais um gol e abriu a vantagem de 3x1. A Bélgica tentou segurar a Alemanha, mas o outro gol belga só saiu aos 45 do 2o tempo, o que não adiantou muito. Placar final: 3x2, e o sonho alemão de um Tetracampeonato estava apenas a três jogos de distância.


O próximo adversário das quartas-de-final prometia ser mais fácil. Afinal, a Bulgária não tem tradição nenhuma em Copas do Mundo. Em 1994 era a primeira vez que a seleção búlgara passava da fase de grupos. Mesmo tendo eliminado a França nas Eliminatórias e goleado a Argentina na fase de grupos, ninguém ainda levava a sério a equipe do Leste Europeu. Passou de fase nos pênaltis contra o México, o que aumentava ainda mais a desconfiança.

New Jersey, 10 de Julho de 1994. Faltavam apenas 7 dias para que o Tetra se consolidasse. Entram em campo a Alemanha, defensora do título mundial, e a Bulgária, que apenas assustava com o terrível artilheiro do Barcelona Hristo Stoitchkov, além da "beleza inversa" do zagueiro Trifon Ivanov. Haviam outros bons nomes, como o calvo Letchkov e Balakov, ambos meias. Mas nada que pudesse botar muito medo na forte Alemanha.

E realmente, não havia motivos para ter medo. Quando Matthäus abriu o placar, de pênalti, aos 2 minutos do 2o tempo, tudo parecia encaminhado para uma vitória alemã e a consequente classificação para as semis. Mas aos 30 minutos, uma falta na entrada da área mudaria toda a história daquele jogo. O artilheiro Stoitchkov bateu com perfeição. Tudo igual. Mas o golpe de misericórdia viria dois minutos depois, quando, de cabeça, Letchkov fez o 2o gol e virou o jogo. A Alemanha sentiu o gol e parou de atacar como estava antes da virada. E assim foi até o final. A Bulgária surpreendia novamente. A poderosa Alemanha campeã do Mundo estava fora da Copa.


A Alemanha cansou tanto o time búlgaro que a surpresa acabou parando na semi-final. Roberto Baggio, o artilheiro da Itália, marcou duas vezes em 4 minutos, no meio do 1o tempo. Mesmo assim, a raçuda Bulgária tentou reagir, com um gol de pênalti de Stoitchkov. Não deu. A final seria Brasil X Itália, e um deles sairia Tetracampeão, o que a Alemanha tanto quis naquele ano. Para nossa alegria, o título foi brasileiro, mas isso é outra história (a camisa do Tetra do Brasil está na Mantoteca).

Após a ressaca da Copa de 1994, já chegava a hora de se preparar para a Euro de 1996, que seria disputada na Inglaterra. As eliminatórias começariam ainda em 94. Enquanto os jogos importantes não vinham, dois amistosos foram realizados: uma vitória por 1x0 sobre a Rússia em Moscou e um empate contra a Hungria em Budapeste.


E então, começaram as eliminatórias para a Euro 96. Contra as fracas seleções da Albânia e da Moldávia, vitórias por 2x1 e 3x0, respectivamente, jogando nos países deles. E ainda em Dezembro de 1994, o jogo de volta contra a Albânia, um novo 2x1, só que em gramados alemães. Vale ressaltar que a seleção ainda era basicamente a mesma da Copa e o técnico Berti Vogts foi mantido no cargo, como um voto de confiança.

 


1995 chegou, e agora a meta era a Euro 96. Aos poucos, a ressaca da Copa de 1994 ia se curando. E logo no 1o jogo do ano, em Fevereiro, a reedição de um confronto daquela Copa: novamente um jogo contra a Espanha, num amistoso disputado em terras ibéricas. E novamente um empate, dessa vez sem gols.


Hora de voltar às Eliminatórias da Euro. Contra a fraca Geórgia, vitória por 2x0 no campo rival. Contra o País de Gales, jogando em casa, um decepcionante empate por 1x1. Os galeses contavam com nomes como Ian Rush (ídolo do Liverpool) e Vinnie Jones (aquele mesmo que viraria ator).



A Alemanha estava há 8 jogos invicta. Desde a fatídica derrota na Copa que o time não perdeu mais. Pois então, novamente aparecia a nova carrasca da Alemanha: a Bulgária. Num jogo válido pelas Eliminatórias, jogando na capital búlgara Sófia, novamente a Alemanha largava na frente no placar, com um gol de Klinsmann aos 11 do 1o tempo. E aos 44, o time alemão ampliava o placar, com um gol de Strunz. Dessa vez, a vitória estava mais do que certa.

Ledo engano. Apenas um minuto depois, pênalti para a Bulgária. E o matador Stoitchkov diminui o placar. E novamente, a Alemanha sofre uma virada-relâmpago dos búlgaros. Stoitchkov empata em novo pênalti aos 21 minutos do 2o tempo e, apenas três minutos depois, Kostadinov consolidava a virada. De 2x0 para 2x3, mais uma virada para a Bulgária. Mais uma derrota dolorida.


Em Julho de 1995, pausa nas eliminatórias para a disputa de um torneio que comemorava o centenário da Federação Suíça de Futebol. E logo de cara uma pedreira: jogo contra a vice-campeã mundial Itália. Mas a Alemanha mostrou sua força e logo no 1o tempo deu números definitivos ao placar: gol de Helmer aos 4 minutos e um inesperado gol contra de Maldini deram os 2x0 para os alemães.


No jogo final, contra a anfitriã Suíça, Hassler abriu o placar aos 18 do 2o tempo, Knup empatou aos 30 e Möller fez o gol do título do torneio aos 38. O que pode servir para revigorar a disposição alemã nos jogos eliminatórios para a Euro.


Os próximos jogos das Eliminatórias para a Euro da Inglaterra seriam decisivos. Após a derrota para a Bulgária, mostrou-se novamente que o time alemão não era imbatível. Antes disso, mais um amistoso que reeditava a Copa de 1994: Bélgica X Alemanha. Dessa vez, em território belga. Möller abriu o placar aos 6 minutos do 1o tempo, mas Goosens empatou aos 17. Mesmo assim, Bobic deu o número final ao jogo aos 39 do 2o tempo: 2x1 Alemanha


Nos 3 jogos seguintes pelas eliminatórias, o que se viu foi um passeio alemão. Começando pelo 4x1 na Geórgia em casa. Depois, também em casa, 6x1 na Moldávia. No País de Gales, 2x1 contra os locais. Jogo que teve dois gols contras. O primeiro de Andy Melville, aos 30 do 2o tempo, e três minutos depois, gol contra de Helmer. Porém, Klinsmann enfim acertou o gol certo aos 35 e deu a contagem final.




A Alemanha estava praticamente classificada. Mas o jogo final das Eliminatórias contra a Bulgária serviria para tirar essa pedra do Leste Europeu de dentro do sapato alemão. 15 de Novembro de 1995, no histórico Estádio Olímpico de Berlim, o derradeiro jogo das Eliminatórias começava. E aos 2 do segundo tempo, parecia mais uma vez que a freguesia se consolidaria. Stoitchkov não perdoou e abriu 1x0. Seria o fim de uma série de seis vitórias seguidas da Alemanha?

Três minutos depois, Klinsmann mostrou que não haveria uma terceira vez. Com o jogo empatado, restou a Thomas Hassler marcar mais um gol aos 11 do 2o tempo. E no melhor estilo "sai zica", o artilheiro Klinsmann fez, de pênalti, o gol que consolidou a vitória da Alemanha, aos 31 minutos. Mesmo com a derrota, a Bulgária também se classificou para a Euro. 





Depois da sensacional série de 7 vitórias seguidas, a Alemanha ainda teria um último compromisso em 95: um amistoso contra a África do Sul em Johannesburgo. Quem esperava a oitava vitória consecutiva do time alemão se decepcionou: o jogo terminou 0x0.

Em Fevereiro de 1996, ainda usando o uniforme apresentado pela Mantoteca, a Alemanha foi para a cidade do Porto, em Portugal, e venceu os locais por 2x1, com dois gols de Möller, já se preparando para o torneio que viria. Era a última vez que o time alemão usaria essa camisa, já que no amistoso contra a Dinamarca no mês seguinte estaria vestindo o novo modelo, mais simples e mais clássico


Abaixo, imagem do uniforme utilizado pela Alemanha entre 1996 e 1997. As cores da bandeira alemã voltaram a ficar discretas na camisa.



Com o uniforme acima, a Alemanha garantiria seu último grande título: a Euro de 96. Como podemos ver nessa postagem, o uniforme usado anteriormente também tem sua parte nessa conquista, afinal foi utilizado durante todos os jogos das Eliminatórias para a competição. Embora a cicatriz da eliminação para a Bulgária na Copa de 1994 ainda esteja visível em cada camisa daquelas.

Desde então, a Alemanha vem formado grandes times, chegando em finais como a da Copa de 2002 e a da Euro 2008, além de fazer ótimas campanhas como a da Copa de 2010 e a da Euro 2012. Porém, sempre vem batendo na trave, e desde 1996 não surge nenhum título de expressão para uma seleção tão tradicional que possui três Copas do Mundo e três Eurocopas. Será que a geração atual da Alemanha, de Neuer, Lahm, Schweinsteiger, Müller, Khedira, Özil, Gomez, Reus, Götze, Gündogan, Hummels e tantos outros jogadores excepcionais escreverão o seu nome em 2014, no Brasil? Vamos esperar para ver.



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Post de Honra - ATLÉTICO MINEIRO - Centenário 2008


Na nossa 1a semana de Mantoteca, já faremos uma homenagem.

O assunto da semana. O Campeão da Libertadores.

Clube Atlético Mineiro



O parabéns fica ao critério de vocês. Pq muitos aqui estavam torcendo contra (futebol sem rivalidade não existe). Então quem quiser ler a história especial de hoje, prossigam. Os que estão p... da vida e não aguentam mais ver coisa sobre o alvinegro das Alterosas, podem fechar a janela e xingar com todo o seu ódio. Eu sei o que é secar. E sei como é horrível quando a secação falha. Entendo vocês

No caso, pego uma camisa que esteve por apenas 1 semana na minha Mantoteca, no início desse ano, antes da Libertadores começar. E, por ironia do destino, foi negociada com um são-paulino. Por isso que não costumo incluir na minha coleção definitiva camisas de times rivais do meu... essa aqui só esteve para negócio, como a do Vasco (cuja história já contei no 2o post desse Blog)

E é uma camisa muito valiosa do Galo. Por coincidência, nas costas dela estava o número 13. O número do ano em que o tão sonhado título da Libertadores veio. Talvez um presságio?


Mas não falarei mais de Libertadores. Vou falar de 2008. Ano dessa camisa. Ano especial para o Atlético. Ano do Centenário do Clube.


Em 2008, os heróis da Libertadores que viria 5 anos depois estavam em lugares distintos. Victor era goleiro do Grêmio, time no qual também jogava o zagueiro Réver. Ronaldinho Gaúcho já estava sendo obscurecido no Barcelona por um tal de Lionel Messi. Jô ainda era lembrado como a "promessa do Corinthians" e estava na fria Rússia, defendendo o CSKA de Moscou. Guilherme também era uma promessa em Minas Gerais, mas estava jogando pelo lado azul da cidade. Pierre era destaque de um Palmeiras que ameaçava voltar a se destacar no cenário nacional. Em outro time verde, encontramos Josué, na Alemanha, defendendo o Wolfsburg. No Rio, Diego Tardelli ajudava o Flamengo a ganhar o Campeonato Carioca em cima do Botafogo treinado nada mais, nada menos do que por Alexi Stival, o Cuca.

 A situação no Atlético Mineiro no ano do seu Centenário também não era muito animadora. Dois anos antes, o time enfrentara o purgatório da Série B, onde sagrou-se campeão. Em 2007, mesmo tendo atropelado o rival Cruzeiro na final do Campeonato Mineiro, numa vitória de 4x0 com direito ao goleiro Fábio levando um gol virado de costas para o mesmo, e tendo feito uma campanha razoável no Brasileirão, não haviam muitas coisas animadoras para se esperar em 2008.

O ídolo Marques, já com seus 35 anos, era anunciado como reforço para a temporada, após passar um tempo no Japão. Outro reforço duvidoso era o meia sérvio Dejan Petkovic, que não exibia mais um bom futebol desde sua passagem pelo Fluminense, entre 2005 e 2006. Além disso, o Presidente do clube Ziza Valadares não agradava os torcedores.





Novidade mesmo, só o novo fornecedor esportivo. A italiana Diadora saía do time e dava lugar para a conterrânea Lotto. Além dessa camisa preta da Mantoteca, a Lotto também fez outras camisas celebrando o centenário do Galo. Como, por exemplo, um modelo excêntrico listrado em preto e dourado, lembrando muito o uniforme do Peñarol do Uruguai. Abaixo, as fotos das camisas lançadas naquele ano:









O bolso do atleticano colecionador ficou mais vazio. E a paciência também. Qualificou-se em 3o lugar no Campeonato Mineiro, atrás do Cruzeiro e do Tupi de Juiz de Fora. Mesmo assim, o time avançava na Copa do Brasil. Deixou times como o Palmas-TO e o Nacional-AM para trás. Voltando ao Campeonato Mineiro, o Atlético deixava o também alvinegro Tupi para trás, após vencer os dois jogos, 3x2 no primeiro em BH e 1x0 em Juiz de Fora.



A partir do dia 23 de Abril, as coisas começavam a complicar-se. Jogando nos Aflitos, em Recife, o Atlético perdia seu primeiro jogo na Copa do Brasil em 2008. Mesmo com o sérvio Petkovic abrindo o placar aos 3 do primeiro tempo, o Galo levaria 3 gols, a virada do time pernambucano. Danilinho, ao apagar das luzes do jogo, ainda deixou o placar mais aceitável. 3x2 e no Mineirão era só buscar a virada.

Mas o desastre maior seria no dia 27 de Abril, um domingo. 1o jogo da final do Mineirão. O sonho de ganhar do rival Cruzeiro no ano do Centenário. O Bicampeonato sobre o rival. Um sonho que começava a desabar logo aos 12 do primeiro tempo, quando o boliviano Marcelo Moreno marcava seu gol. Para piorar, o veterano zagueiro Marcos marcaria contra o patrimônio, 7 minutos depois. O atual volante do Chelsea, Ramires, ainda fecharia a conta do 1o tempo: 3x0 para a Raposa.

Vira 3, termina 6? Quase. Guilherme (o próprio, que fez um gol salvador na semifinal da Libertadores deste ano) marcou o 4o gol aos 21 minutos do 2o tempo. A vingança de 2007 já estava concretizada. Mas, 11 minutos depois, veio Wagner (atual reserva do Fluminense) e completou a soma. 5x0. No ano do Centenário. Numa final. Contra o maior rival de todos. 


A crise veio. Mesmo assim, não foi o suficiente para eliminar o Atlético da Copa do Brasil. Com um gol de Danilinho, o Galo conseguiu manter-se vivo na competição graças ao discutido critério de gol fora de casa. Mas, seria possível reverter o resultado desastroso?



A resposta veio com um time apático em campo no 2o jogo da final. Marcelo Moreno apenas confirmou a superioridade do rival e fez o único gol daquele jogo. Cruzeiro Campeão Mineiro. Vingando 2007 com juros e correção monetária (isso porque também haveria outro 5x0 em 2009).



Desastres em Centenários não são raros. O Flamengo de 1995 também perdeu título estadual para o rival, levando um gol de barriga histórico. O Botafogo de 2004, que havia acabado de voltar para a 1a divisão do Brasileiro e quase foi rebaixado novamente. Posteriormente, teríamos os exemplos do Coritiba de 2009, rebaixado no Nacional na última rodada do campeonato, de forma dramática, o Internacional do mesmo ano, que foi vice na Copa do Brasil e no Brasileirão, e o Corinthians de 2010, que fez um plano ambicioso para ganhar tudo e não ganhou nada. Com o Atlético, o caminho parecia seguir o roteiro comum dos centenários frustrados.

Ainda havia o Brasileirão e as rodadas seguintes da Copa do Brasil. Era hora de enfrentar o Botafogo, treinado pelo agora herói atleticano Cuca. Mas em 2008 Cuca era uma pedra no sapato do Galo. Em 2007, pela mesma Copa do Brasil, o Glorioso, já treinado pelo paranaense, havia eliminado o alvinegro mineiro. E, como em 2007, o 1o jogo terminou 0x0.

Enquanto o jogo de volta não chegava, o Brasileirão começava. E logo de cara, um resultado decepcionante: um empate em casa contra o time reserva do Fluminense, já que o time titular focava-se na Libertadores (aquela mesma, da LDU). E então, no meio da semana, o jogo no Engenhão. O Atlético não aguentou e levou 2 gols do Botafogo do 2o tempo. Era eliminado da Copa do Brasil mais uma vez pelo rival alvinegro do Rio.


Agora, restava esperar pelo início da Sul-Americana (onde enfrentaria o Botafogo novamente na fase nacional da competição). E, claro, prosseguir o Brasileiro. O sonho de um título para coroar o Centenário começava a esvair-se. E depois de mais 2 empates, o time ganhava seu primeiro jogo contra a Portuguesa, em Minas.


Mas era bom demais para aquele time. Na rodada seguinte, veio o atual bicampeão nacional, o São Paulo de Muricy Ramalho, um time que não era muito chegado a golear. Porém, assim como no 1o jogo da final do Mineiro, nova goleada: 5x1 para os paulistas. Na rodada seguinte, veio o rival regional Ipatinga, o típico jogo de 3 pontos, já que o time do Vale do Aço estava muito enfraquecido em relação aos anos anteriores. 4x2 para o Galo no Mineirão


Nas quatro rodadas seguintes, 3 empates e 1 derrota. O time estava cada vez mais longe de qualquer chance de título nacional, e a zona de rebaixamento já começava a ficar muito mais próxima. 2008 se desenhava para ser um ano desastroso como 2005. A derrota para o Cruzeiro que se seguiu apenas confirmava essa hipótese.

Contra o Internacional de Nilmar, o Galo nada pode fazer: mais uma derrota. Mas, contra o Coritiba, que acabava de voltar da Série B, um suspiro de alívio. 3x2 contra o time da "eterna promessa" Keirrison, que deixou a sua marca no jogo.

Eis que aparece o outro alvinegro. O Botafogo, jogando no RJ, surrou impiedosamente o time do Atlético. 4x0, com gol de pênalti saindo no 1o minuto de jogo. Cuca já havia sido demitido, mas tornou o Glorioso um verdadeiro obstáculo na vida do Galo Doido. No Mineirão, a tentativa de reabilitação vencendo o Vitória por 2x1


O Vasco da Gama, rival da próxima rodada, havia sido massacrado pelo Santos na Vila Belmiro. E também era um candidato real à vaga na Série B 2009. O jogo era em São Januário, e o Atlético podia sonhar em vencer para respirar mais. Um já desgastado Edmundo abriu o placar para o Vasco aos 13 do 1o tempo, mas Jael empatou para o Atlético 2 minutos depois. Reação? Não. Mais um vexame. Mais uma goleada. Vieram mais 5 gols, todos a favor do time cruzmaltino. Placar final: 6x1 para o Vasco. E detalhe: repararam no uniforme preto do Atlético? É o uniforme da Mantoteca.


Placares magros garantiam a vida do Atlético no Mineirão. Dessa vez, contra o Sport. 2x1. E, finalmente, a primeira vitória fora de casa. Um importante 3x2 em cima do Santos de Kleber Pereira dentro da Vila Belmiro. Tudo isso colocava o fantasma do rebaixamento longe do bairro de Lourdes novamente.


Próximo combate: o Grêmio no Mineirão. O time gaúcho era líder do campeonato e buscava um título que não vinha desde 1996. Era o último jogo do turno, e o Atlético continuava invicto contra times de fora do estado no Mineirão. Pois então, o tricolor gaúcho aplicou mais uma goleada no Galo: 4x0. À essa altura do campeonato, os torcedores atleticanos já nem queriam mais título no Centenário, queriam mesmo é parar de ver o time passar vergonha.

E por falar em vergonha, lá vinha o Botafogo de novo. Dessa vez pela Sul-Americana. Acreditar em títulos, pouquíssimos. Mas, talvez uma vingança contra as eliminações consecutivas impostas pelo time de General Severiano. Em vão, o 1o jogo foi 3x1 para o alvinegro carioca. E tudo teria que ser resolvido no Mineirão.



Início do 2o turno. Era hora de reagir contra o Fluminense, dessa vez jogando no Rio e com o time titular. O tricolor carioca ainda amargava a ressaca da final inacreditável perdida para a LDU e cumpria exatamente o que o seu técnico Renato Gaúcho dissera: estavam "brincando" no Brasileiro. Mesmo assim, o Galo não conseguiu vencer. 1x0 para o Flu, gol de Dodô.

Um empate com o Goiás em casa se seguiu. E depois, um ótimo resultado. Finalmente o Atlético goleava alguém naquele Brasileiro. E a vítima foi o seu xará do Paraná, que também vivia uma má fase. 4x0 no Atlético Paranaense.


Chegou a hora de encarar o Botafogo novamente, no jogo de volta da Sul-Americana, no Mineirão. Se era para ser eliminado, que fosse de maneira decente. Talvez aquele Atlético de 2008 não soubesse o significado da palavra "decente". Protagonizou mais um vexame em sua casa, a 4a vitória seguida do Botafogo em cima do Galo no ano. E de goleada: 5x2 para o Fogão e outra eliminação.



Depois disso, vieram dois empates pelo Brasileiro, um deles contra o São Paulo que havia goleado o time impiedosamente no 1o turno. E a péssima derrota para o Ipatinga, jogando no Ipatingão. 3x2 para o time que posteriormente cairia como lanterna daquele torneio.

Mesmo assim, o Atlético continuava a oscilar. Ainda estava correndo riscos de cair, perdia e ganhava jogos improváveis. Ganhou o jogo contra o Náutico em casa por 2x1. Empatou também em casa contra o Figueirense. E perdeu para o Palmeiras por 3x1 em São Paulo.

Talvez um dos momentos mais enigmáticos do Atlético Mineiro em 2008 foi no dia 11 de Outubro. Jogo contra o Flamengo, que estava no G4 e embalava para brigar pelo título brasileiro. Em pleno Maracanã. Nem os próprios atleticanos acreditavam que seria possível voltar de lá com um empate. Mais de 70000 espectadores, a maioria deles rubro-negros, foram assistir ao que seria um gigantesco banho de água fria da parte do Galo. 3x0 para o time mineiro. O garoto Renan Oliveira jogou de uma forma espetacular. E o placar ficou barato, pois o Galo perdeu muitos gols.


A vitória sensacional contra o rival Flamengo não ajudou contra o arquirrival Cruzeiro na rodada seguinte. Uma nova derrota. 2x0 para o time azul, que cada vez mais se aproximava de sua vaga na Libertadores. Seria um pesadelo ter que ver o rival disputando a América enquanto novamente o Galo era condenado à Série B. O empate com o Inter por 2x2 também no Mineirão também não ajudava na fuga do fantasma do rebaixamento.

Parece que o estoque de sorte daquele time acabou. Nova derrota, agora em Curitiba para o Coritiba. O próximo jogo era contra o algoz Botafogo, que poderia vencer pela 6a vez consecutiva o Galo. Mesmo que o jogo fosse no Mineirão, o alvinegro do Rio assustava. Havia goleado no 1o turno e eliminado o time de dois mata-matas, tudo no mesmo ano. Então o Galo resolveu apelar novamente para o improvável. Venceu por 2x1, não o suficiente para vingar-se de todas aquelas derrotas, mas foram 3 pontos para fugir de uma humilhante queda centenária.


E parece que a vitória sobre o algoz adiantou. Mais uma vez, o Galo vencia um rubro-negro dentro de sua própria casa. Dessa vez era o Vitória, que caiu por 1x0 dentro do Barradão. Voltando para Minas, o Vasco que havia aplicado um humilhante 6x1 aguardava para tentar reabilitar-se também no campeonato. Vingança! O Atlético quase devolve a goleada no cambaleante time da Colina, 4x1. E empurra o Vasco para os braços do rebaixamento, enquanto era impulsionado para um lugar fixo no meio da tabela.


Mas as 3 vitórias seguidas acabariam na Ilha do Retiro, quando novamente o Galo levou mais um golpe forte. 3x0 para o Sport. Já faltavam duas rodadas para o fim, e o pesadelo de um rebaixamento histórico já havia quase terminado. E mesmo empatando com o Santos e perdendo o jogo que poderia dar o título de Campeão Brasileiro ao Grêmio (o SPFC precisava perder do Goiás, mas venceu), o Galo estava livre. Aquele terrível ano do centenário estava acabado. Sem título. Mas sem mais humilhações.

Em Outubro de 2008, Ziza Valadares havia deixado a presidência e Alexandre Kalil, filho de um dirigente do Atlético que presidiu o clube durante a Era de Ouro nos anos 80 (embora esta só tenha vindo em forma de títulos estaduais consecutivos e boas campanhas no Brasileiro), assumia o cargo, que ocupa até hoje. O resto entraria para a história. O título mais importante depois do Brasileirão de 71. A Libertadores de 2013. O Kalil que entrou naquele Centenário destruído conseguiu levar o Atlético aonde ele nunca esteve. Mesmo depois de 2009, onde o time perdeu a vaga na Libertadores no fim do campeonato. Mesmo depois de 2010 e 2011, anos onde o time quase caiu novamente. Mesmo depois de um vice-campeonato nacional em 2012 que fez todo torcedor atleticano imaginar que o sofrimento dura para sempre. Mas, já dizia Renato Russo, reforçado posteriormente por Cássia Eller, "o pra sempre, sempre acaba".

E é com essa música que deixo vocês hoje, refletindo sobre o belo título do Atlético, sofrido e merecido. E lembrando de tudo que esse time passou até chegar neste momento de glória.

Parabéns Galo, Campeão da Libertadores da América.


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Seleção Brasileira - 1991/93 - O gigante do futebol acordava!

30 de Outubro de 1991. Naquele mês, o Papa João Paulo II havia vindo ao Brasil pela 2a vez na história, depois de 11 anos. A Croácia havia declarado sua independência da Iugoslávia, algo que a vizinha Eslovênia já havia feito em Junho do mesmo ano, e que ocasionaria o início de um conflito sangrento nos Bálcãs que duraria mais 4 anos. A União Soviética se desfazia lentamente. E um mês antes, um certo disco com um bebê nu nadando atrás de uma nota de dólar era lançado. "Nevermind", do Nirvana, estreava com músicas que eternizariam o rock e o movimento grunge.


O futebol brasileiro via nascer um supertime: o São Paulo de Telê Santana. Após 2 vices consecutivos, o Tricolor Paulista conquistava o Brasileirão (que na época era disputado no 1o Semestre) em cima do surpreendente Bragantino. O time ainda consagraria-se Campeão Paulista no fim do ano. A Copa do Brasil foi vencida pelo histórico Criciúma de Jairo Lenzi e do atual técnico da Seleção, Luiz Felipe Scolari. O time comandado pelo Felipão venceu o copeiro Grêmio e conseguiu o direito de disputar a Libertadores em 1992.

Mas no âmbito internacional, as coisas não andavam bem. Corinthians e Flamengo foram eliminados da Taça Libertadores consecutivamente pelo Boca Juniors do goleiro Navarro Montoya e de um jovem chamado Gabriel Omar Batistuta. O Colo Colo acabaria dando ao Chile seu primeiro (e até hoje, o único) título de Libertadores. O Cruzeiro foi o alento brasileiro, ao ser campeão da Supercopa da Libertadores, torneio disputado apenas pelos campeões da América do Sul. Derrotou o River Plate, após sair perdendo por 2x0 em Buenos Aires, e revertendo com 3x0 no Mineirão.

21 anos se passaram desde que o Brasil havia ganho sua última Copa do Mundo. Ainda era vívida a lembrança do gol argentino de Caniggia que havia eliminado a Seleção de Lazaroni na Itália em 90. E as coisas ficaram piores quando o ex-jogador Falcão assumiu o cargo. Defendendo o título de 1989, quando o torneio foi disputado no Brasil, a Copa América no Chile era uma chance de tirar a Seleção da crise. Na 1a fase, o Brasil venceu 2 de seus 5 jogos, empatou 1 e perdeu apenas para a Colômbia de Higuita, Escobar, Rincón e Valderrama. Passou em 2o lugar, atrás da própria Seleção Colombiana.

Porém, na segunda fase, disputada entre os 4 melhores times da competição, uma derrota para a carrasca Argentina por 3x2 no 1o jogo complicava a vida da Seleção. Mesmo assim, conseguiram vencer a Colômbia e chegou na última rodada necessitando vencer o Chile e torcer por uma vitória colombiana sobre os portenhos. O Brasil venceu por 2x0 os donos da casa, mas a Argentina superou a Colômbia e foi campeã da América do Sul. Mesmo sem o astro Maradona, que já começava a protagonizar a polêmica com as drogas.


A derrota custou o cargo de Falcão na Seleção, e no jogo seguinte, um amistoso contra o País de Gales, o técnico foi Ernesto Paulo. Mesmo jogando na casa do rival, a derrota de 1x0 foi um sinal vermelho. A crise estava reinando na Seleção Brasileira e quase ninguém acreditava que aquele time ganharia alguma coisa importante em 1994, ano da próxima Copa.

Foi então chegada a época de uma renovação. O técnico Carlos Alberto Parreira foi chamado para assumir o Brasil. E no jogo em que estrearia, contra a Iugoslávia, o Brasil também renovava o visual de seu uniforme. O velho uniforme de pano da Topper utilizado desde 1990 seria substituído. E o escudo da CBF voltaria a ser igual a como era antes de 1981, aposentando o outro distintivo que levava o desenho da Taça Jules Rimet em seu interior.

E então, a camisa do Brasil sofria uma das maiores mudanças de sua história. Entra em cena um dos uniformes mais diferentes da história da Seleção Brasileira, feito pela mesma Umbro que forneceu as camisas daquele ano vitorioso de 1970. Porém, ao invés de tradicionalismo, viu-se a ousadia do design que era muito comum no início dos anos 90. Esse é o uniforme escolhido da Mantoteca para hoje:


Este uniforme era de um grande amigo meu, então subornei-o com uma camisa do Flamengo de 2011 com o nome do Ronaldinho nas costas (em 2011 mesmo - quando a torcida do Fla ainda acreditava que o Dentuço seria o salvador da pátria). Ele trocou a camisa nova do Flamengo por essa do Brasil, além de uma camisa do Flamengo de 1995, uma do Milan de 1995 e outra da Alemanha da Copa de 1994. Uma troca 1 por 4 que foi boa para as duas partes.

Voltando a falar sobre o uniforme lançado em Outubro de 1991 pela Umbro. O uniforme, além de resgatar o logotipo clássico da CBF, tinha uma gola pólo um pouco extravagante, com todas as 4 cores da bandeira nacional. Além de várias marcas d'água em forma de bandeiras tremulantes com a palavra "BRASIL" dentro. Também pode somar-se o logo na manga direita, uma mistura do diamante da Umbro com as palavras "CBF". Além do amarelo, mais claro do que o usual. Muitos odiaram, outros gostaram.


Abaixo, uma matéria do Esporte Espetacular (que não tinha aquelas palhaçadinhas de João Sorrisão na época, era um programa mais sério) que fala sobre o novo uniforme. A partir dos 54 segundos:

Esporte Espetacular falando sobre o uniforme do Brasil em 1991

A estreia do uniforme foi contra a Iugoslávia, que possuía em sua base o time do Estrela Vermelha de Belgrado, que protagonizara uma zebra histórica naquele ano de 91, ao vencer a Liga dos Campeões da Europa sobre o Olympique de Marselha, que tinha deixado o poderoso Milan de Van Basten para trás. E foi na data que inicia esta postagem da Mantoteca que a partida ocorreu: 30 de Outubro.

O Brasil, com jogadores como Raí, Bebeto, Cafu, Müller e Renato Gaúcho, venceu a partida por 3x1, disputada em Varginha, cidade próxima ao local de nascimento de Pelé, Três Corações, em Minas Gerais. Sim, a mesma cidade de Varginha que seria conhecida pela suposta aparição de um extraterrestre 5 anos depois. O ano de 91 ainda teria mais um amistoso em Dezembro contra a já fadada à extinção Checoslováquia (no início de 1992, República Checa e Eslováquia se separariam). Vitória brasileira por 2x1 jogando em Goiânia.

1992 começou prometendo ser um ano de novidades. A União Soviética acabou, a guerra estourava nos Bálcãs (o que tirou a vaga da Iugoslávia na Eurocopa daquele ano, sendo substituída pela Dinamarca, que ganharia o torneio), e o governo de Fernando Collor tentava em vão controlar a hiperinflação que galopava com ferocidade, desvalorizando cada vez mais o ressuscitado Cruzeiro em pouco menos de 2 anos.

Na Seleção, más notícias. O Brasil não se classificou para as Olimpíadas de Barcelona. Mas a Seleção Principal continuava sua série de vitórias iniciada depois da estreia do novo uniforme (e da chegada de Parreira). Vitórias de 3x0 contra os EUA de Meola, Balboa e Tab Ramos (nomes que se tornariam mundialmente conhecidos em 1994) e 3x1 contra a Finlândia de Jari Litmanen elevavam um pouco o otimismo. Mas quando enfrentou a primeira seleção qualificada, e jogando fora do país, perdeu: vitória do Uruguai comandado por Luis Cubilla por 1x0 em Montevidéu.

Abaixo, o vídeo com a vitória sobre a Finlândia:


O Brasil voltaria a enfrentar outros adversários qualificados: empatou com a Inglaterra em Wembley por 1x1, o Milan (é um clube, mas na época fazia frente a muita seleção!) por 1x0 no San Siro. Depois disso, disputaria um torneio amistoso nos EUA, goleando por 5x0 o México de Jorge Campos, e sairiam campeões vencendo novamente os norte-americanos naquele ano, por 1x0.

Brasil 1x1 Inglaterra:


A Seleção, já na metade de 1992, começava a engrenar novamente, pelo menos nos amistosos. Naquela altura do campeonato, o escândalo que levaria Collor ao impeachment no final do ano já estava sendo amplamente divulgado pela imprensa. Ayrton Senna tentava brigar pelo Tetra Mundial na F1 pela McLaren, mas a Williams com sua supermáquina dirigida por Nigel Mansell abria vantagem. O vôlei de ouro do Brasil encantava nos Jogos Olímpicos. E no âmbito dos clubes, uma felicidade internacional importante depois de muito tempo: o São Paulo sagrava-se campeão da Taça Libertadores pela primeira vez. Desde o Grêmio em 1983 que nenhum brasileiro levava a competição mais importante do continente.

O Brasil ainda aprontaria naquele ano: venceria a França por 2x0 em pleno Parque dos Príncipes, em Paris (depois disso, a França se tornaria uma grande pedra no sapato do Brasil - já descontando a eliminação de 86 - vieram derrotas brasileiras como a da final de 98 e a das quartas de 2006, além de uma invencibilidade francesa que durou até 2013). Enfrentou a Costa Rica e venceu por 4x2. Mas esbarrou no Uruguai, de novo, perdendo em território nacional, na cidade de Campina Grande, na Paraíba. 2x1 para o escrete "charrua", embora a Seleção Brasileira estivesse desfalcada dos jogadores que jogam fora do país. O curioso é que no mesmo dia o Cruzeiro foi bicampeão da Supercopa da Libertadores, em cima do Racing da Argentina. É importante ressaltar isso para mostrar que não é de hoje que a desorganizada Conmebol não pensa na hora de marcar partidas importantes (vide as finais da Libertadores e da Recopa neste ano de 2013), os dois jogos foram quase no mesmo horário!

Brasil x Uruguai:


No fim do ano, ainda haveria uma boa vitória para comemorar. Um 3x1 sobre a detentora do título de Campeão Mundial, vitória brasileira sobre a Alemanha de Illgner, Matthäus, Sammer e Klinsmann, jogando em Porto Alegre e já contando com os jogadores que atuavam na Europa, como Jorginho, Bebeto, Careca e Romário.


1993 começou de forma trágica. Na véspera do fim de ano, a atriz Daniella Perez, filha da escritora Glória Perez, era assassinada pelo ator Guilherme de Pádua na Barra da Tijuca. Os dois formavam um par romântico na novela das 8 da Rede Globo: "De Corpo e Alma". Até hoje, este crime ainda é enigmático. Aquele começo de ano também foi marcado por outro fato: Itamar Franco e seu topete assumiam a presidência da República no lugar do renunciado Collor. A inflação continuava atacando ferozmente os bolsos brasileiros. E 1994 se aproximava, ano de novas eleições, ano de Copa, ano de mudanças?

E a Seleção de Parreira, já caracterizada pelo seu estilo "europeu", mais retrancado, continuava no labor. Em fevereiro, amistoso contra a Argentina, em Buenos Aires. Um empate em 1x1. Em Março, amistoso contra a Polônia em Ribeirão Preto: outro empate, 2x2. O Brasil pode ter melhorado, mas ainda era visto com muita desconfiança pela torcida. 1993 era ano de Copa América e, mais do que isso, das Eliminatórias para a Copa de 1994.

Brasil x Argentina:



Junho de 1993. O Brasil foi convidado para a US Cup, torneio amistoso disputado na sede da Copa do Mundo que viria: os Estados Unidos. Já era o 3º jogo contra os norte-americanos em menos de dois anos. E foi a 3a vitória: 2x0. Também no mesmo torneio, o Brasil enfrentou a Alemanha novamente, protagonizando um empate digno de dois gigantes do futebol mundial: 3x3. O torneio era disputado por pontos corridos, e o Brasil precisava vencer a Inglaterra e torcer por uma derrota alemã perante os EUA. O Brasil não fez sua parte: empatou com os ingleses em 1x1. Já os alemães venciam os EUA e ganhavam o troféu amistoso, já que também ganhariam da Inglaterra. Naquela época, estava claro que a Alemanha entraria em 1994 como favorita. Já o Brasil...

Vídeo do confronto entre Brasil X Alemanha:

Se o Brasil não dava pinta que chegaria longe em 1994, os clubes brasileiros encantavam. O São Paulo, que havia vencido o "Dream Team" do Barcelona na final do Mundial de Clubes de 1992, vencia consecutivamente sua segunda Libertadores (algo que não ocorre desde então). O Palmeiras montava um esquadrão com o dinheiro da Parmalat e também prometia alegrias aos seus torcedores.

Então a Copa América do Equador começou. O fato de só jogadores atuantes no Brasil terem sido convocados, já que os que jogam na Europa foram poupados, não era desculpa. Os times brasileiros estavam se fortalecendo naquela época. O 1º jogo foi contra o Peru, e logo uma decepção: empate por 0x0. Logo depois, outro golpe: derrota por 3x2 para o Chile, que tinha o Sierra em seu plantel (ídolo e atual técnico da Unión Española de Santiago, teria uma passagem fracassada pelo SPFC em 1995). Para passar de fase, era necessário vencer ou vencer o Paraguai de Chilavert. O Brasil ganhou de 3x0, gols de Palhinha (SPFC) e do "animal" Edmundo (Palmeiras). O Brasil classificava-se em 2o lugar no seu grupo, atrás apenas dos peruanos.

Vídeo da derrota para o Chile:


Nas quartas-de-final, era chegada a hora de vingar-se da Argentina, que cada vez mais tornava o seu vizinho de cima um freguês mais fiel. O são-paulino Müller abriu o placar, mas Leo Rodríguez empataria o jogo e levaria as definições para os pênaltis. Todos os dois times acertaram as suas cobranças na 1a parte, levando a disputa para as cobranças alternadas, onde um pênalti perdido contra outro marcado significa a eliminação imediata. Luisinho (Vasco da Gama) acertou, e Medina Bello (River Plate) também. Mais uma cobrança. Marco Antônio Boiadeiro, do Cruzeiro bicampeão da Supercopa, tinha a chance de fazer a Seleção brilhar internacionalmente. Porém, bateu muito mal, no meio do gol, e Goycoechea apenas fez o básico: defendeu. Por ironia do destino, Borelli, do Racing que havia perdido a Supercopa para o Cruzeiro de Boiadeiro no ano anterior, foi para a cobrança derradeira. Zetti não teve chance e o Brasil caiu pela 3a vez seguida para a Argentina num torneio internacional oficial.

Jogo completo:


O Brasil amargava seu primeiro grande fracasso com Parreira, depois de sua volta em 91. E a Argentina, que nada tinha a ver com isso, passou pela Colômbia (também nos pênaltis) e venceu o México por 2x1 na final, sendo mais uma vez campeã da Copa América. Por sinal, o último título da seleção principal dos "hermanos" até hoje.

No mês de Julho, começava as Eliminatórias para a Copa. O grupo em que o Brasil se encontrava apenas aparentava ter o Uruguai como ameaça. Equador, Bolívia e Venezuela não eram o suficiente para amedrontar aquela seleção que nunca havia perdido um jogo sequer de Eliminatórias na história.

Antes disso, o Brasil ainda teve tempo de fazer um amistoso contra o Paraguai, jogando em São Januário, no Rio de Janeiro. Com gols de Branco e Bebeto, veio a vitória por 2x0. Aquela seleção que não encantava também não dava sinais de que perderia uma vaga para a Copa.

O primeiro jogo seria contra a seleção equatoriana, em Guayaquil, facilitando o trabalho do time, já que a cidade fica ao nível do mar, ao contrário da capital, Quito, onde a altitude poderia atrapalhar. Mesmo assim, o Brasil não passou de um decepcionante 0x0.

O próximo jogo seria mais complicado. A Bolívia sempre foi uma seleção fraca, mas a altitude de La Paz era um obstáculo gigantesco para qualquer time. O Brasil tinha a invencibilidade nas Eliminatórias ao seu favor. E o jogo começou. O Brasil sentiu os efeitos da altitude e jogou mal, mesmo com jogadores já experientes como Jorginho, Branco, Dunga, Zinho, Bebeto, Careca e Evair. O primeiro sinal veio no pênalti cobrado por Marco Etcheverry (também conhecido como "El Diablo"). Mas Taffarel, que fazia uma excelente partida, defendeu a cobrança.

Porém, o herói Taffarel viraria um vilão cinematográfico aos 43 do segundo tempo. Com a perna esquerda, o goleiro mandou para dentro do gol um chute cruzado totalmente defensável de "El Diablo". Bolívia 1x0. E contrariando Tiririca, as coisas ficaram pior do que estavam. Um minuto depois, Peña, cara a cara com Taffarel, marcou o segundo tento. Fim de festa: 2x0. A Bolívia não era mais aquele time fraco, e soube se aproveitar do fator altitude como nunca. E o Brasil parecia já anunciar o desastre que não era mais improvável. Seria 1994 a primeira Copa sem a "Seleção Canarinho"?


A crise na Seleção Brasileira chegou. Assim como a crise que assolava o país naquele inicio de anos 90. Numa época em que até o Fusca foi ressuscitado pelo Itamar como opção de carro barato. Numa época em que bom mesmo era ver Antônio Fagundes interpretando o Coronel José Inocêncio na novela das 8 "Renascer". Numa época em que o pagode romântico de grupos como o "Raça Negra" e o "Só Pra Contrariar" estouravam nas paradas e eram obrigatórios em todos os churrascos de domingo.


As eliminatórias continuavam. E o Brasil se via obrigado a vencer a fraca Venezuela na casa deles. Um passeio brasileiro: 5x1. Ainda houve tempo de fazer um amistoso em Maceió: 1x1 com o México. O próximo jogo prometia ser extremamente complicado. Enfrentar o Uruguai no Estádio Centenário era algo muito difícil. E a Seleção não andava bem das pernas. A não convocação de Romário, alegada pela Comissão Técnica do Brasil por causa da indisciplina do jogador, causava comoção nacional. O Baixinho estava indo muito bem na Europa, acabara de deixar o PSV da Holanda para se juntar ao Dream Team do Barcelona comandado por Cruyff e formar um ataque letal ao lado do búlgaro Hristo Stoitchkov.


Para os pessimistas, o resultado em Montevidéu foi lucro: empate em 1x1 para um time que vinha de derrotas consecutivas para a Seleção Celeste. Mas era bom que as vitórias voltassem logo. E voltaram, quando o Brasil venceu o Equador no Morumbi, em São Paulo, pelo placar de 2x0. Não era o bastante ainda, mais vitórias teriam que vir. A Bolívia fazia sua parte na altitude e o Uruguai vencia de forma mais convincente seus jogos. O Brasil ainda corria sérios riscos de ser eliminado.


Em Recife, era hora de pegar a Bolívia novamente. O time boliviano dessa vez não tinha a altitude para ajudar. E, ao nível do mar, os andinos foram massacrados: 6x0 para o Brasil. Ainda não era motivo de alívio, o Uruguai fazia a sua parte e despontava como a maior ameaça à classificação brasileira para 1994.


Mesmo voltando a vencer, a torcida brasileira não estava nem um pouco agradada pelo modo de jogar da Seleção. O estilo imposto por Parreira, um futebol mais pegado, adverso ao futebol-arte que tanto caracterizou a história da Seleção Brasileira, irritava os torcedores. Além do veto à Romário, que já ganhava campanha nacional para ser convocado.

Ainda assim, o Brasil continua seguindo seu caminho de vitórias. O penúltimo jogo das eliminatórias, contra a Venezuela, em Belo Horizonte, seria fundamental. Vitória incontestável por 4x0, gols de Ricardo Gomes (2), Palhinha e Evair. O Brasil chegava ao derradeiro jogo contra o Uruguai OBRIGADO a vencer, já que a Celeste Olímpica também havia vencido o seu compromisso contra o Equador. Caso o Brasil perdesse, teria que torcer por uma derrota da Bolívia no Equador, pois apenas o empate neste jogo já seria suficiente para colocar o time boliviano e o Uruguai na Copa.

O Uruguai possuía um bom time, com nomes como Kanapkis, Ruben Sosa e Enzo Francescoli, simplesmente o jogador que inspirou Zinedine Zidane, segundo o próprio. E o fato de o jogo ser no Maracanã já causava calafrios. Um novo "Maracanazo" seria um desastre, talvez até sepultasse a reputação conquistada pela Seleção entre os anos 50 e 70. Já eram 23 anos sem título de Copa do Mundo, e nesse intervalo de tempo tivemos a rival Argentina ganhando duas vezes, e Itália e Alemanha igualando o feito brasileiro de 1970: ambos os europeus atingiram o Tri Mundial.

19 de Setembro de 1993. O Maracanã estava lotado. Não como em 1950, quando mais de 200 mil cabeças viram o maior desastre da História do Futebol Brasileiro. Talvez como em 1989, quando Romário garantiu o último título importante daquela Seleção, na vitória por 1x0 na Copa América. Mas de uma coisa é certa: aquele jogo, não importasse o resultado, também entraria para a História.

Finalmente Romário voltava à Seleção. Mas o temor de um desastre como 1950 deixava aquele jogo tenso. Os supersticiosos se agarravam no fato de o Brasil ter perdido um jogo de eliminatórias pela primeira vez naquele ano, o que de certa forma assustava. Mas futebol se decide em campo. E então, num Maraca abarrotado de gente vestida de amarelo, o juiz peruano Alberto Tejada apitava o início do jogo.

O Brasil atacou muito. Romário estava sendo o destaque do jogo. Mas a bola não entrava. Em alguns poucos contra-ataques o Uruguai chegava com perigo. O Uruguai fazia seu jogo violento para impedir os ataques brasileiros e segurar o jogo. E conseguiu, pelo menos no 1o tempo.

No 2o tempo, o panorama do jogo não mudou. Muitos gols perdidos, a maioria pelo Brasil. Enquanto isso, a Bolívia conseguia sair na frente no jogo contra o Equador. A notícia chegava ao Maracanã através dos radinhos de pilha. Se o Uruguai conseguisse fazer um improvável gol, o sonho da Copa de 1994 seria soterrado. Já haviam se passado mais de 25 minutos do 2o tempo, quando Bebeto, avançando pela ponta-direita, cruzou para o centro da área. Um gigante chamado Romário subiu mais que o marcador e cabeceou para baixo, sem chances para o goleiro Siboldi. O Brasil abria 1x0. Gol do ídolo Romário, que a torcida tanto pediu. A dupla Romário e Bebeto já havia se mostrado eficiente em 1989, e novamente os dois mostravam o seu valor na Seleção.

A partir daquele 27º minuto do 2o tempo, quando saiu o 1º gol do Brasil, todo o temor de um desastre começou a ficar para trás. O Equador também empatava com a Bolívia, o que dava a liderança de seu grupo das Eliminatórias para o Brasil. E, por consequência, eliminava o Uruguai da Copa. Era questão de tempo até sair o 2o gol. E saiu, depois que Romário deu um drible no goleiro Siboldi e só fez o básico: empurrar para o fundo das redes.

O Maracanã entrou em frenesi. O Brasil estava classificado para a Copa do Mundo de 1994. A escrita de participar em todos os Mundiais (mantida até hoje) continuava intacta. Mesmo a derrota para a Alemanha por 2x1 num jogo na cidade alemã de Colônia num amistoso não abalaria aquele momento. E ainda houve um último jogo em 1993, uma vitória simples contra o México, jogando em Guadalajara. Foi o último jogo que o Brasil trajou a camisa mostrada aqui na nossa Mantoteca. Em 94, um modelo semelhante da Umbro, com marcas d'água do escudo da CBF na parte frontal, seria a camisa utilizada na Copa. E aquela camisa, como todos sabem, também seria histórica. Tão histórica quanto as de 58, 62, 70 e, posteriormente, 2002. Seria a camisa do Tetracampeonato Mundial, dando fim a 24 anos de jejum e marcando a volta do Brasil ao topo. Mas aí já é outra história

Obrigado por lerem mais esse artigo! Continuem acompanhando as histórias da Mantoteca, cada camisa, um novo conto!





Vídeo da "decisão" contra o Uruguai:
Alemanha 2x1 Brasil: