terça-feira, 11 de março de 2014

[Série Copa do Mundo 2014] Itália 1986-1990 - Buscando um sonho real como em 1982

Como disse no tópico anterior, "pularia" algumas seleções por infelizmente ainda não ter camisa delas na coleção. Logo, todas as seleções do Grupo C e 3 seleções do Grupo D foram cortadas. Pois é, não tenho camisas da Inglaterra, do Uruguai e da Costa Rica aqui na Mantoteca (embora esteja correndo atrás da vermelha da Inglaterra de 150 anos e da camisa usada pela Celeste Olímpica na Copa das Confederações 2013). Mas tenho duas da Itália, que foram apresentadas aqui mesmo na Mantoteca no Guia de Compras que fiz sobre o país da bota. E escolhi a belíssima camisa usada pela Squadra Azzurra durante quatro longos anos, de 1986 até 1990.


Essa foi a primeira camisa feita pela Diadora para a seleção de seu país. Após usar a marca francesa Le Coq Sportif na campanha inesquecível de 1982 e no fracasso na Euro 1984, a Diadora assumiu a responsabilidade de fornecer os uniformes da Azzurra. Como de costume, a marca do fornecedor na camisa só aparecia em alguns modelos de loja (costume mantido pela Itália até 2000, quando o símbolo da Kappa apareceu nas mangas do também histórico uniforme daquele ano). Mas a principal mudança foi no desenho do escudo, que foi totalmente modificado e arredondado. As três estrelas das Copas conquistadas foram colocadas dentro do escudo novo. Uma nova alteração seria feita em 1991, quando a Itália remodelou seu escudo para um novo desenho bem mais estranho que duraria até 1999, quando a Kappa retornaria com o escudo clássico (em 2006 o escudo sofreria outra mudança, respeitando o formato original, mas com algumas inovações no desenho. Esse distintivo é usado até hoje). A Diadora ficaria até 1995 com a Itália, dando lugar à Nike, que forneceria até 99, quando a Kappa chegou. Desde 2004, a Itália tem seus uniformes feitos pela alemã Puma.



No caso da minha camisa, o símbolo da Diadora aparece apenas na etiqueta de dentro, como nas camisas de jogo (embora essa seja modelo de loja). Bem simples, como eram as camisas da Itália até 91, quando a marca já aderiu a onda daquela época de aplicar inúmeras marcas d'água geométricas por todo o uniforme. Bom, está na hora de contar a história dos homens que usaram esse uniforme nos gramados.

Sobre 1982, acho que só basta citar palavras-chave como "Melhor Seleção Brasileira dos Últimos 40 Anos", "Zico", "Telê Santana" até passar para outras como "Paolo Rossi". Pois é, essa história de 82 já foi contada e recontada inúmeras vezes, vamos passá-la. A mesma Seleção Italiana que surpreendeu o mundo foi um fiasco ao tentar se classificar para a Euro 1984, ficando atrás da Romênia, Suécia e Tchecoslováquia no grupo eliminatório. Como foi campeã da Copa do Mundo, não precisou disputar as Eliminatórias (regra que valeu até 2002, quando até os campeões do Mundo tiveram que entrar nas disputas continentais pela vaga no Mundial).

O grupo da Itália na Copa de 86 era mediano. A Argentina de Maradona, depois de ter sido eliminada junto com o Brasil em 1982 para a Itália na 2a fase da Copa de 82, estava novamente perante os italianos. O resto não assustava. A Bulgária nunca sequer havia vencido um jogo de Copa e a Coreia do Sul era cogitado como o maior saco de pancadas. Numa época onde até os quatro melhores terceiros colocados de cada grupo se classificavam para o mata-mata, o risco de a Itália ir pra casa mais cedo, mesmo com a tradição italiana de suar para passar da fase de grupos, era ínfimo.

A Itália contava com inúmeros jogadores de 82, como o zagueiro Scirea, o lateral-esquerdo Cabrini, o atacante Altobelli, além do comando de Enzo Bearzot. Paolo Rossi acabou sendo cortado do time por causa de uma lesão. E assim, os italianos estreariam contra a Bulgária, abrindo a Copa no dia 31 de Maio de 1986, no gigantesco Estádio Asteca. Como na maioria dos jogos de abertura das Copas, foi decepcionante: Altobelli chegou a abrir 1x0 no fim do 1o tempo, mas Sirakov empataria para os búlgaros no final do jogo.


O segundo jogo, dia 5 de Junho, na cidade de Puebla, seria contra os temidos argentinos. Os "hermanos" haviam vencido a Coreia por 3x1 na 1a rodada e eram líderes do grupo. E como no primeiro jogo, Altobelli abriu o placar de pênalti, aos 6 do 1o tempo, mas aquele que seria o nome daquela Copa, Diego Armando Maradona, faria o gol de empate, ainda na primeira etapa. Mas "El Pibe" não conseguiu mais fazer nada contra os italianos. E o jogo terminou 1x1 novamente para a Itália.


O terceiro e último jogo da fase de grupos seria contra a fraca Coreia do Sul. A Itália não tinha uma memória boa em relação as Coreias. 20 anos antes, a Coreia do Norte (ela mesma!) impôs uma das maiores zebras futebolísticas da História das Copas ao vencer os italianos por 1x0 na Inglaterra. Então, todo cuidado seria pouco. Novamente, Altobelli inaugurou o marcador naquele dia, aos 17 do primeiro tempo. Mas aquele dia 10 de Junho mostraria ao mundo novamente a velha tradição italiana de sempre passar dificuldades nas fases de grupo. A Coreia empatou aos 17 do segundo tempo. Altobelli desempataria 11 minutos depois e outro sul-coreano aumentaria a fatura marcando contra. Parecia fácil? A Coreia marcaria um gol a favor no minuto seguinte. E os italianos só acreditariam naquela primeira vitória no torneio quando o juiz apitou o final da partida. A Argentina venceria a Bulgária por 2x0 e classificaria-se em primeiro e a Itália, com a vitória na rodada final, foi para a fase de mata-mata como 2a melhor de seu grupo. No final, até a fraca Bulgária com míseros 2 pontos conseguiria sua vaga na fase eliminatória por ter sido uma das melhores seleções na 3a colocação.


A Itália enfrentaria um adversário forte logo nas oitavas: a França de Michel Platini, que ostentava o título de melhor seleção da Europa naquela época, afinal, era a Campeã da Euro 1984. E o atual presidente da UEFA e ídolo da italiana Juventus foi quem inaugurou o placar naquele dia, aos 15 minutos. Jogando no Estádio do Pumas UNAM, na Cidade do México, a Itália não conseguiu segurar os vizinhos franceses. Stopyra, atacante francês, ampliou o placar no segundo tempo. Os italianos davam adeus à chance de conquistar o Tetra e ser a seleção mais vitoriosa de todas. A França? Também tiraria a mesma esperança do Brasil na fase seguinte e seria parada pela Alemanha Ocidental na semifinal, como em 1982. Mal sabiam os franceses que 20 anos depois teriam o troco dado pelos italianos, mas essa é outra história.


A Copa de 1990 seria muito especial. Afinal, ocorreria na própria Itália, assim como em 1934, na época de Mussolini. Mas antes dela ainda havia a Euro 1988, na Alemanha Ocidental. E dessa vez, a Itália conseguiu sua classificação, sendo líder num grupo que tinha Suécia, Portugal, Suíça e Malta, com seis vitórias, um empate e apenas uma derrota, para os suecos. O que permitiu o acesso italiano ao torneio europeu.

A estreia italiana seria logo contra os donos da casa, no dia 10 de Junho de 1988, em Düsseldorf. A freguesia alemã perante os italianos, que já era notável desde aquela época, poderia ser um fator importante. E parecia que a sina continuaria: Roberto Mancini abriria 1x0 aos 7 minutos, mas Andreas Brehme logo empatava em 1x1 três minutos depois. Se a Alemanha Ocidental continuava sem vencer os italianos, pelo menos não perdeu em casa. Destaque para o uniforme usado pelos alemães: é o modelo clássico da Adidas que seria eternizado em 1990.


A Itália encarava a Espanha na segunda rodada, em Frankfurt. A vice-campeã da Euro anterior não segurou os italianos e Gianluca Vialli fez o único gol do jogo.


Para não passar sufoco na última rodada, era quase obrigatório deter a Dinamarca, que ainda era idolatrada como a "Dinamáquina" que encantou o mundo no ano anterior. Altobelli e De Agostini fizeram os gols italianos, no 2o tempo da partida em Colônia, selando a classificação. Ficaram em 2o lugar, atrás da Alemanha Ocidental por ter um gol a menos no saldo de gols.

Naquela época, a Euro era mais enxuta, com menos times. Então, a Itália classificou-se para enfrentar o temido líder do outro grupo do torneio nas semis, a União Soviética. O sonho de quebrar o jejum de 20 anos sem ganhar o torneio europeu acabou perante os soviéticos em Stuttgart. Dois jogadores ucranianos da URSS fizeram os tentos que desqualificaram o time do torneio, Lytovchenko e Protasov, ambos atuavam no Dínamo de Kiev, que possuía relevância considerável no cenário europeu na época (foi campeão da Recopa Europeia 2 anos antes). E a Itália então começaria a se preparar para a Copa que iria sediar.


Naquela época já era comum as seleções trocarem de uniforme para disputar a Copa. O Brasil aposentou o uniforme de 1986 e lançou um novo para 1990 depois de sair bem-sucedido nas Eliminatórias, com Fogueteira e tudo. A Holanda, que foi campeã da Euro 88 com um icônico uniforme estampado, trocou a indumentária por uma mais clássica para a Copa. A Itália foi na contramão, mantendo o uniforme dos fracassos de 86 e 88 para ser usado no torneio. A Alemanha, como citado acima, também manteve a camisa da Euro 1988 para a disputa da Copa de 90.

O Grupo A da Copa, onde a Itália estrearia buscando o Tetra, contava com forças decadentes como a Tchecoslováquia e Áustria, além dos Estados Unidos, voltando a disputar um Mundial depois de 40 anos. Desde 1986, Azeglio Vicini era o técnico da Itália, depois de ter treinado as categorias de base da Azzurra. A Série A italiana vivia um de seus melhores momentos, com times históricos como o Milan dos holandeses, a Inter dos alemães, o Napoli de Maradona e Careca, a Sampdoria, além de outras forças. E o fato de ter muitos estrangeiros nos clubes italianos não quer dizer nada. Jogadores italianos também estavam numa boa fase. É o caso de Franco Baresi, Maldini, Ancellotti e Donadoni, do Milan; Zenga e Serena, da Inter; De Napoli e Carnevale, do Napoli; Vierchowod, da Sampdoria; Roberto Baggio, da Fiorentina; além de um tal de Salvatore Schillaci, que estava na Juventus mas destinado a esquentar o banco naquele Mundial.

Em Roma, dia 9 de Junho de 1990, a Itália estreava contra a Áustria. Rivais históricos, por causa das disputas territoriais do passado, começavam a batalhar na bola. O ataque titular italiano, com Vialli e Carnevale, não conseguiu furar a defesa austríaca. Então, aos 31 minutos, o atacante do Napoli foi substituído por Schillaci. E foi logo o atacante da Juve que abriu o placar, dois minutos depois. E a Itália conseguia sua primeira vitória no torneio. Destaque para o interessantíssimo uniforme da Áustria, fornecido pela Puma, com um grafismo hipnotizante na parte da frente.


Os Estados Unidos, que foram triturados pela Tchecoslováquia no primeiro jogo por 5x1, eram os próximos rivais da Itália. De novo mandando o jogo na capital nacional, os italianos não venceram os americanos com tanta facilidade quanto os tchecoslovacos, mas o gol de Giannini no começo do jogo já bastou para assegurar a vitória.


A vitória da Tchecoslováquia sobre a Áustria por 1x0 classificava por antecipação os italianos para a fase de mata-mata. Mas jogando em casa, não dava para fazer feio. E então, a Itália bateria os tchecoslovacos por 2x0 no último jogo da fase de grupos, classificando-se em primeiro (e sem dificuldades!). Salvatore Schillaci, que começou os dois primeiros jogos no banco, foi promovido à titular e fez o primeiro gol logo aos 9 minutos do 1o tempo. O segundo gol foi de Roberto Baggio, aos 33 minutos do 2o tempo.


Nas oitavas-de-final, um duelo de Campeões Mundiais. A Itália enfrentaria o Uruguai de Hugo de León, Enzo Francescoli e Rúben Sosa. A Celeste Olímpica havia sido vice-campeã da Copa América de 1989, e ainda tinha certo respeito na América Latina. Uma das bases do Uruguai de 90 era o Nacional que ganhou a Libertadores de 1988 e o Mundial de Clubes do mesmo ano. Ou seja, jogo que prometia dificuldades. Mais uma vez jogando em Roma, a Itália apenas abriu o placar no 2o tempo. Autor do gol? Schillaci. O ex-reserva já fazia o seu 3o na competição. Aldo Serena ampliaria aos 38 e o sonho do tri uruguaio acabaria sendo estendido até os dias atuais.


O próximo adversário italiano não parecia tão assustador. A Irlanda, apesar da boa fase de grupos que fez, passou da Romênia apenas nos pênaltis. Era um time que sabia se defender bem. Mas não segurou Schillaci, que mais uma vez deixava sua marca na competição, aos 38 do 1o tempo. Num jogo predominantemente defensivo, acabou prevalecendo a força dos donos da casa. A Itália estava há apenas dois jogos do Tetra Mundial, e apenas ela poderia conquistar essa honraria, já que o Brasil foi eliminado pela Argentina ainda nas oitavas.

Por falar em Argentina, era a própria que aparecia no caminho da Itália mais uma vez. Eliminou a Iugoslávia nos pênaltis, com atuação memorável do goleiro Goycochea. Aquele também seria o primeiro jogo em que a Itália jogaria fora de Roma. A partida seria realizada no Estádio San Paolo, em Nápoles. Isso gerou uma declaração polêmica de Maradona, ídolo do clube local, que afirmou que os torcedores napolitanos torceriam a favor da Argentina por sua causa. Ledo engano. Maradona foi vaiado como nunca naquele jogo, inclusive pelos mais fanáticos torcedores do Napoli. E o roteiro daquela semifinal começou bem: Schillaci marcava seu sexto gol pela Itália, abrindo o placar logo aos 17 minutos da 1a etapa. A Argentina, muito dependente do seu camisa 10, não conseguia passar pela forte zaga italiana. Mas Claudio Caniggia, aos 12 do 2o tempo conseguiu a brecha para fazer o empate. E mesmo com uma prorrogação que durou oito minutos a mais porque o juiz "não prestou atenção ao seu relógio", não saiu mais gol naquele jogo.

A disputa seria nos pênaltis. A Argentina já havia levado o jogo anterior até a série penal. O primeiro pênalti seria cobrado pela Itália, pelo zagueiro Franco Baresi. Goycochea de um lado, bola para o outro, 1x0 Itália. Serrizuela chutou com força, Zenga foi pro lado errado e empatou a série. No segundo pênalti italiano, Roberto Baggio cobrou, Goycochea chegou a espalmar a bola, mas a gorduchinha acabou indo para dentro das redes (é, Baggio e Baresi já acertaram pênaltis, ao contrário do que 1994 mostraria). Burruchaga empatou, mandando a bola para o lado oposto de Zenga, 2x2. De Agostini recolocou a Itália na frente, num chute onde por muito pouco o goleiro argentino não pegou. Olarticochea (aquele que deu água batizada pro Branco) chutou bem no meio, Zenga foi para a esquerda, 3x3.

A disputa de pênaltis parecia que seria interminável como aquele jogo no tempo normal e na prorrogação, até a hora em que Donadoni chegou para a sua cobrança. O jogador do Milan chutou para a direita, mas Goycochea conseguiu espalmar, dessa vez para fora do gol. Tudo o que a Argentina queria. Foi então que o craque Maradona chegou para realizar sua cobrança, todos na expectativa, já que é algo frequente no futebol vermos craques desperdiçarem pênaltis em decisões, exemplos não faltam. Com categoria, bateu rasteiro à esquerda, enquanto Zenga errou mais uma vez o canto. A Argentina passava à frente da Itália na série. Aldo Serena carregava um peso imenso nas costas: era obrigação acertar o pênalti para manter a Azzurra viva na disputa. Bateu no mesmo canto em que Donadoni chutou, e de novo Goycochea pegou. A Itália estava eliminada da sua Copa do Mundo.


Ao invés da finalíssima em Roma, a Itália disputaria o terceiro lugar da Copa na pequena cidade de Bari. Vencer a Inglaterra, que havia sido eliminada pela Alemanha Ocidental, não seria motivo de festa, mas uma derrota faria tudo ficar mais melancólico. A Inglaterra, que estava satisfeita pela campanha feita, até jogou mais (o "English Team" estava numa crise sem precedentes antes da classificação para a Copa de 90). Mas quem abriu o placar foi Baggio, aos 26 do 2o tempo. David Platt ainda empatou aos 36, mas Schillaci, num pênalti aos 41 minutos, fez o gol da vitória e o gol que selou sua artilharia no torneio. Os italianos não tinham muito o que comemorar, mas Salvatore Schillaci podia fazer sua festa: saiu do banco para virar o maior marcador da Copa do Mundo disputada em seu país. Enquanto os italianos nem celebraram tanto a vitória em Bari, os ingleses fizeram uma recepção calorosa ao 4o lugar da Copa de 1990 no retorno deles à Londres. Enquanto isso, em Roma, qualquer um dos finalistas empataria com a Itália em número de títulos mundiais se vencesse. A Alemanha Ocidental (no último ano da divisão das Alemanhas) foi a vencedora e virou a 3a seleção a ser Tricampeã Mundial.


Depois do fracasso em casa, a Itália aposentou o uniforme que ficou quatro anos em serviço. Mas mesmo com novos uniformes, passaria maus momentos naquela década. A final de 1994 contra o Brasil foi um deles, mais uma derrota nos pênaltis. A final da Euro 2000 contra a França (que também havia eliminado-os da Copa de 1998) também foi dolorosa. E a eliminação para a Coreia do Sul em 2002? O Tetra tão perseguido desde 1986 só viria 20 anos depois, quando a Itália enfim deu o troco nos algozes franceses e no trauma dos pênaltis. Apesar disso, faria uma campanha vergonhosa em 2010, saindo na fase de grupos. E na Euro 2012 levaria uma surra histórica de 4x0 da Espanha na final.

 Mas mesmo assim, os italianos chegam à 2014 sempre com o respeito que conquistaram ao longo de tantas vitórias e derrotas. Estão num grupo complicado, com dois dos adversários que foram batidos na Copa de 90 (Inglaterra e Uruguai) além da incógnita Costa Rica. Será que a Itália conseguirá empatar com a Seleção Brasileira em número de títulos mundiais em pleno Brasil? Enquanto a Copa não vêm, seguiremos com a Série Copa do Mundo 2014, contando as histórias dos times que estão nesse Mundial com as camisas da Mantoteca. Continue acompanhando!

quarta-feira, 5 de março de 2014

[Série Copa do Mundo 2014] Chile 2010 - A velha sina de figurante

Como prometido, trago aqui hoje a continuação da Série Copa do Mundo 2014, onde falarei da 3a seleção do Grupo B, o Chile. Eterno figurante em Copas, o time do país com maior IDH da América do Sul conseguiu o seu melhor desempenho em 1962, quando terminou em 3o lugar na Copa que foi sediada justamente em território chileno. Fora isso, não guarda muitos momentos memoráveis no certame mundial. Até hoje a "Roja" não tem sequer uma Copa América na sua sala de troféus.

Na Mantoteca, guardo uma camisa do Chile bem interessante. Consegui-a após trocar uma camisa do Atlético Paranaense com um chileno em Santiago, no final de 2012. A camisa era da temporada anterior, mas mesmo assim estava intacta. Se hoje é a alemã Puma que fornece o time chileno, de 2003 até 2010 uma fornecedora local chamada Brooks foi a responsável por confeccionar a camisa da seleção nacional. E mesmo sendo pouco conhecida fora de suas fronteiras, a marca confeccionou um uniforme bonito e de boa qualidade para a disputa do Mundial de 2010 na África do Sul. É o exemplar que tenho aqui.


A camisa tem uns detalhes bem interessantes, como os detalhes em cor de cobre, mineral abundante no país (e que é a razão do nome de times chilenos conhecidos como Cobreloa e Cobresal). Na parte interna da gola dá para ler a frase "Con el fútbol todos ganamos".



O Chile caiu num grupo complicado na Copa de 2010. Afinal, a Espanha era Campeã da Euro de 2 anos antes e tinha um certo favoritismo (e lá estão eles no mesmo grupo de novo em 2014). A Suíça com seu ferrolho prometia ser dureza. Só Honduras não assustava. Era um desafio para o time treinado pelo ofensivo técnico argentino Marcelo "El Loco" Bielsa, que contava com jogadores como o lateral-esquerdo Arturo Vidal, os meias Matías Fernandez e Jorge Valdívia, além do centroavante Alexis Sanchez.

O primeiro jogo, dia 16 de Junho, foi contra o azarão Honduras. E mesmo com uma seleção mais fraca, os hondurenhos fizeram um jogo duro contra os chilenos. O único gol de Jean Beausejour, aos 34 do primeiro tempo, foi o suficiente pra garantir os 3 pontos para o time. Enquanto isso, a Suíça surpreendia a Espanha e venceu os campeões europeus também por 1x0.


O jogo contra a Suíça, dia 21 de Junho, seria essencial para manter o sonho da classificação para o mata-mata vivo. Depois de ter vencido os espanhóis, os suíços entraram com certo favoritismo contra os chilenos. Num jogo de ataque contra defesa, o Chile saiu por cima com sua ofensividade, com gol do meia Mark González, que quebrava uma invencibilidade suíça de não levar gols na Copa desde 2006. A vitória de 1x0 deixava os chilenos mais perto das Oitavas. E a Espanha venceu Honduras por 2x0, conseguindo os primeiros pontos no grupo e eliminando os centro-americanos.


Um empate contra a Espanha bastaria para a classificação. Mas os espanhóis precisavam da vitória, já que um triunfo suíço sobre Honduras poderia tirar os espanhóis na primeira fase, caso não vencessem. E num jogo bem disputado, embora a Espanha jogasse melhor, os chilenos conseguiram se impôr com bastante raça.  Não evitaram o gol de David Villa, aos 24 do 1o tempo e de Andrés Iniesta, 13 minutos depois. Mas logo no início do 2o tempo, Rodrigo Millar diminuiu, e o Chile teve ótimas chances de empatar. Fim de jogo: a Espanha atingia seu objetivo com a vitória de 2x1. E para a sorte dos chilenos, a Suíça ficou no 0x0 com Honduras, classificando-se em 2o lugar. A "Roja" voltava a disputar um mata-mata na Copa do Mundo depois de 12 anos. Aquela também foi também a última vez em que o Chile havia se classificado para o Mundial, ainda com Salas e Zamorano no time. Abaixo, os atuais companheiros de Barcelona, Sánchez e Piqué, disputando uma bola.


Se foi em 1998 a última vez que o Chile foi às oitavas-de-final da Copa, o adversário seria justamente o mesmo daquela ocasião. E as memórias não eram nada agradáveis. Afinal, tanto os chilenos quanto nós, brasileiros, lembramos muito bem daquele massacre de 4x1 que o Brasil comandado por Zagallo aplicou na seleção vermelha. Mas a história era um pouco diferente em 2010, a Seleção Brasileira ainda era vista com certa desconfiança pelo torcedor, ao contrário de 98, enquanto os chilenos estavam prontos e ansiosos para interromper uma série de vitórias, todas elas de goleada, impostas pelo Brasil durante a primeira década do Século XXI.

O jogo contra o Brasil começou equilibrado. Em alguns momentos parecia até que o Chile enfim conseguiria interromper a série de vitórias brasileiras. Até um escanteio aos 35 do 1o tempo, onde o zagueiro Juan subiu mais alto que toda a zaga chilena e cabeceou sem chances para o goleiro. Ainda atordoado pelo primeiro gol, três minutos depois Luis Fabiano ampliou o marcador. Então o domínio passou todo pelo time comandado por Dunga, que ainda faria o 3o gol aos 14 minutos do 2o tempo com Robinho. Ficaria por isso aí, 3x0 para o Brasil. Chile eliminado da Copa do Mundo e de novo surrado pelos canarinhos.


A camisa usada na Copa do Mundo teve uma vida muito breve. Ainda no fim de 2010 a Puma entrava como fornecedora do Chile e lançava seus primeiros uniformes para "La Roja". Hoje, os chilenos estrearam seu novo uniforme da Puma para a Copa de 2014 contra a Alemanha (vestida com o uniforme reserva supostamente inspirado no Flamengo). Perderam de 1x0 em Stuttgart, mas mostraram que estão mais fortes que há 4 anos atrás e que poderão até surpreender os favoritos de seu grupo, Espanha e Holanda.

E aí, será que o Chile, depois de ter esperado 52 anos para voltar a disputar uma Copa na América do Sul (falharam ao se classificar para a Argentina em 78), vai conseguir sair da figuração e chegar, quem sabe, até as semifinais, como naquela vez? Aguardemos.

Enquanto isso a Série Copa do Mundo segue em frente. A Austrália infelizmente será pulada, pois no momento ainda não tenho uma camisa dos "Socceroos" (quero uma reserva azul de 2010, se alguém tem pra vender...), além do Grupo C inteiro (Colômbia, Costa do Marfim, Grécia e Japão) e de mais da metade do grupo D. O próximo post será sobre a Itália, único integrante do Grupo D que possuo camisas de seleção. E a camisa da Azzurra que tenho aqui é muito especial e tem uma história muito boa! Continuem ligados!



terça-feira, 4 de março de 2014

[Série Copa do Mundo 2014] Holanda 2008/09 - Acelerando sem cruzar a linha de chegada

Olá pessoal!
Finalmente voltei ao Brasil depois de 7 ótimos meses na Alemanha, onde tive a oportunidade de aprender várias coisas e adquirir mais peças para a coleção. Já quase no final do Carnaval, aproveito o tempo livre do feriado para fazer a postagem sobre a camisa da segunda Seleção do Grupo B da Copa do Mundo: a Holanda.


A camisa acima foi o uniforme reserva utilizado pelos holandeses entre 2008 e 2009. A Nike fornece a Seleção dos Países Baixos desde 1997, quando também começou o contrato que dura até hoje com a Seleção Brasileira. Tradicionalmente, a Holanda usa a cor da Família Real do país, o laranja, como uniforme principal. E costuma revezar as cores na camisa alternativa, com cores como branco, preto e, como visto acima, o azul.


Acima, na parte interna da gola, pode-se ver os dois primeiros versos do Hino Nacional Holandês ("Het Wilhelmus"). E o formato pentagonal do escudo do uniforme é assumidamente inspirado nas "Cube Houses" de Rotterdam, um ícone da arquitetura moderna holandesa. Além da listra com as cores da bandeira cruzando a parte da frente da camisa. A camisa titular daquela época também tem detalhes em comum, como o escudo pentagonal, os versos do hino e a bandeira da Holanda, só que essa também era na gola.


A camisa reserva estreou no final de 2007, enquanto a titular foi lançada no início de 2008. Ambos foram lançados para substituir os uniformes de 2006, que foram usados na Copa daquele ano (onde a Holanda foi parada por Portugal nas oitavas de final, num dos jogos mais violentos da história do torneio mundial). Uma nova geração de jogadores holandeses tentavam se afirmar naquela época, ainda com alguns veteranos como o goleiro Van der Sar, o meia Giovanni von Bronckhorst e o atacante Ruud van Nilsterooy. Nomes fortes como Arjen Robben, Robin van Persie, Wesley Sneijder e Rafael van der Vaart ganhavam cada vez mais espaço no time que, assim como em 2006, era treinado pelo ex-centroavante Marco van Basten, que fechou a porta para outros veteranos que ainda tinham vaga naquele time, como, por exemplo, Clarence Seedorf.

A Euro 2008 significava algo muito importante para a Holanda: o segundo título oficial do país num torneio internacional. Vinte anos antes a mesma Holanda havia vencido a Euro 1988, disputada na Alemanha Ocidental, e vencendo uma forte União Soviética na final, com um gol histórico do homem que naquela época estava no banco como treinador, van Basten. Além disso, serviria para formar a base do time que tentaria a classificação para a Copa do Mundo de 2010, e quem sabe tentar conquistar o título que lhe escapou pelos dedos duas vezes seguidas, em 1974 e 78.

"Os Laranjas" classificaram-se para a Euro de forma apertada, terminando a fase eliminatória atrás da Romênia e apenas um ponto à frente da Bulgária. E ainda por cima caiu no "Grupo da Morte", que tinha França, Itália e os mesmos romenos que haviam ficado à frente na fase anterior. Italianos e franceses eram "apenas" campeões e vices da Copa de 2 anos antes, respectivamente. Boa parte do time da Itália de 2006 ainda estava na equipe da Euro, enquanto a França já estava sem a sua maior referência, Zinedine Zidane.

A Holanda, naquele Junho de 2008, estreou na capital da Suíça, Berna, contra a Itália campeã do Mundo. E o que se viu foi um passeio holandês. 3x0 Holanda, com gols de van Nilsterooy, Sneijder e van Bronckhorst. A Itália, treinada pelo ex-jogador Donadoni, que sempre foi referência na defesa, só não levou mais gols porque Buffon não permitiu.


O próximo jogo seria contra a França, também em Berna. Mesmo com a predominância de franceses no estádio (o que é justificado pela proximidade da Suíça com as terras francesas) e mesmo contando com veteranos como Henry e Thuram, além de nomes que estavam cada vez permanentes no time como Franck Ribéry, a Holanda surpreendeu mais uma vez. Depois de surrar a campeã do Mundo, surrou o vice por impiedosos 4x1. Gols de Kuyt, Van Persie, Robben e Sneijder. Henry descontou para a França. Com a vitória e o empate de 1x1 entre Romênia e Itália, a Holanda já garantia a vaga na fase final (e também ganhava a credencial de favorita do torneio).


O jogo contra a Romênia virou apenas um cumprimento de tabela para a Holanda, embora a seleção do Leste Europeu ainda pudesse se classificar se vencesse os holandeses (e dependendo do resultado do jogo entre Itália e França por causa do saldo de gols). Mesmo com quase todo o time de reservas, a Holanda bateu a Romênia por 2x0, gols de Huntelaar e Van Persie, também em Berna, eliminou a Romênia (a Itália classificou-se ao vencer a França por 2x0 também), e garantiu a liderança do grupo


Naquele momento, a Holanda, junto à Espanha, eram as maiores favoritas para levar o título. Mesmo com a Espanha ainda carregando o rótulo de "amarelona" (como visto no post anterior do Blog). O adversário dos holandeses seria a Rússia, que estreou levando um passeio de 4x1 da Espanha e classificou-se em segundo de seu grupo vencendo a Grécia, que defendia o título da Euro, por 1x0, e a Suécia de Ibrahimovic por 2x0. Muitos apostavam na Holanda, que estava 100% no torneio.

Mas o que se viu naquele dia nas quartas-de-final de Basiléia foi diferente do que foi visto em Berna por três vezes. Bem diferente. A Rússia, ironicamente treinada pelo holandês Guus Hiddink, abriu o placar com um gol de Pavlyuchenko, aos 11 minutos da 2a etapa. E van Nilsterooy, aos 41, empatou o jogo, levando à prorrogação. Uma partida completamente marcada pela ofensividade das duas equipes. Os primeiros 15 minutos de tempo extra foram menos agitados do que os 90 anteriores, levando a crer que o jogo seria definido nos pênaltis. Porém, aos 7 minutos do segundo tempo da prorrogação, Torbinski desempatou a partida. E quando parecia que a Holanda arranjaria o gol do empate, o atacante Arshavin, campeão da Liga Europa daquele ano com o Zenit de São Petersburgo, fez o terceiro gol aos 11 minutos, fechando a conta. A Holanda mais uma vez decepcionava sua torcida. Estava fora do caminho para a final em Viena, na Áustria. A Euro 2008 foi a segunda na história disputada em 2 países, a primeira foi justamente na Holanda e na Bélgica, 8 anos antes.


Mesmo a Rússia tendo tirado com autoridade uma das maiores favoritas no torneio, não aguentou a força da Espanha novamente e levou outra surra, dessa vez de 3x0. A Espanha quebrava o estigma de sempre perder em jogos decisivos ao vencer a Alemanha por 1x0 em Viena na final. E a Holanda... bem, continuava vivendo das lembranças dos vices mundiais de 74 e 78 e da vitória solitária na Euro 1988. Mas a África do Sul era logo ali. E, quem sabe, não chegaria a hora de enfim levar a Copa que insiste tanto em fugir?

As Eliminatórias para 2010 começaram em Setembro de 2008 para a Holanda, que estreou contra a fraca Macedônia em Skopje. Vitória de 2x1, gols de Heitinga e van der Vaart. O gol macedônio foi feito por Pandev, que estaria no forte time da Inter de Milão que conquistou uma Quíntupla Coroa em 2010 e hoje joga no Napoli.


O outro adversário da Holanda, em Outubro, também não havia tanta tradição no cenário mundial: a Islândia. Jogando em Rotterdam, venceu com facilidade por 2x0, gols de Mathijsen e Huntelaar.


O jogo seguinte contra a Noruega em Oslo prometia ser mais difícil. Quatro dias depois do jogo contra os islandeses, a Holanda enfrentaria os outros escandinavos. E venceriam novamente: 1x0, gol de van Bommel. Já em Março de 2009, o jogo contra a Escócia seria importante para que o time continuasse com 100% de aproveitamento. E jogando em Amsterdam, venceu facilmente por 3x0, gols de Huntelaar, van Persie e Kuyt. Em Abril, massacraria a Macedônia no começo do 2o turno das eliminatórias, com impiedosos 4x0 (2 de Kuyt, um de Huntelaar e outro de van der Vaart). Abaixo, imagem de Robben sofrendo falta no jogo contra a Escócia.


Na gelada Reykjavik, a Holanda vencia novamente a Islândia por 2x1 (de Jong e van Bommel), em Julho de 2009. Estava isolada na liderança de seu grupo nas Eliminatórias Europeias. Quatro dias depois de vencer os islandeses e já classificada por antecipação para a Copa, bateu novamente a Noruega em Amsterdam por 2x0 (Oojier e Robben). Aquele time não queria saber de pisar no freio.

A Escócia precisava apenas vencer a já classificada Holanda para conseguir pegar o 2o lugar no grupo e ir para a repescagem, sem depender mais de ninguém. Mas quem disse que aquele time holandês deixou os escoceses retornarem à Copa depois de 12 anos? Elia fez o único gol do jogo, em Glasgow, e eliminou a Escócia, que foi ultrapassada pela Noruega na tabela pelo saldo de gols (e nem assim foi para a repescagem - pois teve a menor pontuação de todos os 2o lugares). Porém, a Holanda havia feito história. Terminou com 100% de aproveitamento as Eliminatórias, 14 pontos à frente da Noruega e da Escócia. Mas mesmo assim era difícil confiar naquela seleção. Na Euro 2008 foi a mesma coisa, uma campanha arrasadora na fase de grupos para cair logo no primeiro jogo da fase de mata-mata. Abaixo, foto do jogo final contra a Escócia, em Glasgow.


A Nike em 2010 preparou um novo uniforme para a  Holanda. Aposentou a combinação bizarra de camisa laranja + calções brancos + meias azuis-claras para retornar com o calção preto. A camisa reserva azul foi substituída por uma branca, assim como em 2006. E sobre a campanha na Copa, quem é brasileiro lembra muito bem: a Holanda eliminou o Brasil nas quartas de final por 2x1 (Olá, Felipe Melo!), passaria pelo Uruguai nas semis e faria a final com a Espanha, onde fracassaria novamente, ficando com três vices mundiais e vendo a festa que os espanhóis fizeram ao chegar num ponto onde nem todos imaginavam que eles alcançariam. Na Euro 2012, a Holanda fracassaria de forma mais cruel, ficando na lanterna da fase de grupos, atrás de Alemanha, Portugal e Dinamarca.

Nas Eliminatórias para 2014, os holandeses quase repetiriam o feito de 2009, classificando-se de forma invicta (9 vitórias e 1 empate). Estarão no Brasil, junto com a mesma Espanha que os venceu 4 anos atrás em Joanesburgo, além de se juntarem ao Chile e Austrália no Grupo B. A Nike já lançou a nova camisa titular, e a reserva já vazou na internet: será azul, assim como a camisa de 2008 que falamos hoje, só que com tons mais escuros, e um escudo retrô homenageando os 125 anos da Real Federação Holandesa de Futebol. A imagem abaixo mostra a nova camisa azul da Holanda:


Será que em gramados brasileiros a Holanda conseguirá enfim colocar as mãos na Taça do Mundo FIFA sem deixá-la cair no chão? Enquanto essa pergunta permanece em aberto, a Mantoteca prosseguirá com a Série Copa do Mundo falando da outra seleção do Grupo B, o Chile!

Até lá!

domingo, 23 de fevereiro de 2014

[Série Copa do Mundo 2014] Espanha 1996/97 - O calvário ibérico

Enfim, depois de várias interrupções, prossigo com a série que comecei no fim do ano passado, onde disse que falaria sobre os uniformes das Seleções que jogarão a Copa de 2014 que estão aqui na Mantoteca.

Hoje a Espanha é unanimidade. Ganhou as duas últimas Eurocopas (além de ter outra de 1964, somando 3 títulos europeus, maior campeã do continente junto à Alemanha), a Copa de 2010 e fracassou apenas na Copa das Confederações de 2009, onde foram surpreendidos pelos EUA nas semifinais, e na edição de 2013, onde não conseguiram segurar o Brasil dentro do Maracanã na final. Mas até 2008 a Espanha carregava um outro fardo: o de time amarelão. A camisa que mostro hoje é dessa angustiante época da "Fúria".


Desde 1992, a Espanha é fornecida pela Adidas, em contrato que dura até hoje. A marca alemã chegou a fornecer os espanhóis na Copa de 1982, quando jogaram em casa, mas durante toda a década de 80 e começo dos anos 90 a "Fúria" vestiu uniformes da francesa Le Coq Sportif. Esse uniforme da Mantoteca é de 1996, e substituiu o também ousado uniforme que os espanhóis usaram nos Estados Unidos, na Copa de 1994, como pode-se ver abaixo:


O uniforme que está na Mantoteca foi feito pela Drastosa (que hoje faz uniformes para a Nike no Brasil). E há algumas diferenças entre a camisa versão brasileira e a versão original-europeia. Na versão original, há uma marca d'água grande com o escudo da Real Federação Espanhola de Futebol, além de um patch da bandeira da Espanha na manga esquerda. O selo na parte inferior direita da camisa também é diferente na versão original, nela o "trefoil" da Adidas é substituído pela logomarca da RFEF. Abaixo, uma foto da camisa original.


Além do uniforme vermelho, a Espanha teve como camisa alternativa a versão azul-marinho, que seguia o mesmo template.


Usando esses uniformes, a Espanha estreou na Euro 1996, disputada na Inglaterra, contra a ainda temida Bulgária, que ainda tinha a base do time que chegou ao 4o lugar da Copa de 1994. Stoichkov, o artilheiro búlgaro que jogava no Barcelona ainda naquele ano, fez o gol de pênalti, mas Alfonso, atacante do Real Betis, empatou a partida.


A segunda partida da Espanha prometia ser mais difícil. A França, que também amargava um período de ostracismo (embora menor, já que 12 anos antes havia ganho a Euro) e tinha ficado de fora da Copa dos EUA, já estava com boa parte dos jogadores que fariam parte da histórica conquista da Copa 2 anos depois. E Djorkaeff, um dos jogadores que estaria naquele fatídico 3x0 contra o Brasil em 1998, fez o gol francês aos 3 do 2o tempo. A Espanha, que também contava com bons jogadores como o goleiro Zubizarreta, os meias Hierro e Luis Enrique, conseguiu reagir, empatando o jogo com Caminero, ícone do time do Atlético de Madrid que conquistou a Liga Espanhola naquele mesmo ano, já aos 40 minutos.


A Espanha, por fim, enfrentaria a Romênia, num duelo decisivo para se classificar ao mata-mata. Bulgária e França, ambas com 4 pontos e na zona de classificação, enfrentariam-se também. A Romênia, que também vinha de uma boa participação na Copa de 94, havia perdido os dois primeiros confrontos e já não poderia mais se classificar para a 2a fase. Mesmo ainda contando com jogadores como Gheorghe Hagi, o time do Leste Europeu acabou perdendo o seu 3o jogo por 2x1, gols de Manjarín, do La Coruña e de Guillermo Amor, eterno meia do Barcelona dos anos 90.





Classificada atrás da França, que ficou com o 1o lugar do grupo, a Espanha chegou às quartas de final contra os donos da casa, a Inglaterra. No jogo disputado em Wembley, a partida terminaria empatada em 0x0 mesmo na prorrogação. A vaga então foi decidida na disputa de pênaltis. Shearer iniciou a série de cobranças, convertendo e colocando os ingleses na frente. Hierro chegou para colocar a Espanha no páreo, mas chutou bem no meio do travessão e perdeu a cobrança. Platt aumentaria a vantagem inglesa convertendo sua cobrança, e Amor manteria a Espanha viva também colocando a bola no fundo das redes, com categoria. Pearce, no 3o round de cobranças, mesmo com Zubizarreta acertando o canto, marcaria o seu, obrigando Belsué a também converter, o que aconteceu num bom chute rasteiro. Então, chegou a vez do mítico Paul Gascoigne chutar, e numa bela cobrança, manteve a Inglaterra na frente. A responsabilidade de Nadal, outro jogador que fez história no Barça dos anos 90, era imensa. Se ele errasse, a Espanha estaria fora. E o gigante David Seaman acertou o canto, defendendo com facilidade a cobrança do espanhol, eliminando a Espanha e aumentando o incômodo jejum espanhol em torneios oficiais.


Mesmo com todo o prestígio de ter uma Liga forte nos anos 90, a Espanha continuava a ver navios em termos de títulos. Sempre era cravada como uma força que poderia chegar ao menos até as semifinais, mas no final acabava saindo precocemente da disputa. Foi assim na Copa de 90, quando caiu nas oitavas para a Iugoslávia, na Euro 92, onde nem chegou a se classificar, na Copa de 94, onde foi parada pela Itália que terminaria vice naquele torneio, e novamente em 96. Era hora de pensar na Copa da França, país vizinho, em 1998. Não seria fácil, pois o grupo onde a Espanha estava nas Eliminatórias contava com a mesma Iugoslávia que foi carrasca 6 anos antes, além da República Tcheca que foi vice da Euro 96 para a Alemanha.

Em Setembro de 1996, a Espanha iniciou a caminhada rumo à França  nas frias Ilhas Faroe, contra a Seleção local. Venceu facilmente por 6x2 o time conhecido como um dos maiores sacos de pancadas da Europa. Em Outubro, a missão seria mais complicada: jogo contra a Rep. Tcheca em Praga, empate por 0x0. Em Novembro, um massacre contra a Eslováquia jogando em casa: 4x1, com gols de Pizzi, Amor, Luis Enrique e Hierro. O vídeo abaixo é do jogo contra as Ilhas Faroe




Em Dezembro de 96, um jogo-chave para os espanhóis, a Iugoslávia chegava a Valência para duelar contra os donos da casa. Mas a Espanha mostrou novamente sua força e venceu o jogo por 2x0, com gols do atual técnico do Bayern de Munique, Pep Guardiola, e do eterno artilheiro do Real Madrid, Raúl.Vale lembrar que a Iugoslávia em 1996 já se limitava aos atuais territórios da Sérvia, Montenegro e Kosovo, e perdeu muitos dos jogadores que fizeram parte do time de 90, que foram brilhar em outras seleções, como na forte Croácia que despontou naquela época.

Ainda em dezembro, a Espanha viajou até Malta para enfrentar a fraca seleção local. Um passeio de 3x0 com um Hat-Trick de Julien Guerrero, meia-atacante que fez toda a sua carreira no Athletic Bilbao. A "Fúria" estava firme e forte no caminho para a França e, quem sabe, para o tão sonhado título mundial.

Em Fevereiro de 97, começava o returno da fase eliminatória. E em Alicante, Malta levou outra surra, dessa vez de 4x0, com dois gols de Alfonso, Pep Guardiola e Pizzi. O jogo seguinte, em Abril, seria muito mais complicado: a Iugoslávia aguardava os espanhóis no Marakana (sim, o nome é homenagem ao estádio carioca) , o estádio do Estrela Vermelha, em Belgrado. A Espanha ainda saiu na frente por todo o jogo, com gol de Hierro de pênalti aos 19 minutos da 1a etapa. Mijatovic, atacante que atuava na Espanha, pelo Real Madrid, fez o gol que igualou a partida aos 42 do 2o tempo, também de pênalti. Mas o time espanhol, mesmo com o empate, permanecia líder de seu grupo.

O jogo de Junho de 1997 contra a Rep. Tcheca era essencial para deixar a Espanha praticamente dentro da Copa. E Hierro voltou a marcar de pênalti, o único gol da partida. E a "irmã" dos tchecos, a Eslováquia, novamente apanharia dos espanhóis, em Bratislava, os gols da "Fúria" foram marcados por Kiko e Amor no jogo que terminou 2x1. E a Espanha só dependia da vitória contra as Ilhas Faroe jogando em Gijón para garantir o primeiro lugar e a vaga direta na Copa. O placar "magro" de 3x1 foi mais do que suficiente. A Espanha estava de volta à Copa do Mundo. 

A Iugoslávia foi empurrada para a repescagem, onde venceria a Hungria e também garantiria a vaga na Copa de 98. Mas a excelente campanha espanhola nas Eliminatórias, com 8 vitórias e 2 empates, num grupo relativamente difícil, alavancou novamente o status de "seleção que pode chegar longe" que a Espanha adquiriu por todos estes anos. Para 98, a Espanha aposentou o uniforme da Euro 96 e das Eliminatórias e lançou outro modelo, um pouco mais conservador que o uniforme de 1996.






O fracasso ainda na fase de grupos em 1998 aumentou ainda mais o calvário ibérico. E foi assim nas Euros e Copas seguintes, até 2008, onde a Espanha conseguiu enfim quebrar o jejum, culminando com a Copa de 2010 e a Euro 2012. Hoje em dia, a camisa vermelha da Espanha é muito temida, ao contrário daquela triste época dos anos 90, onde os espanhóis não conseguiam se livrar do estigma de "amarelões".


Bem, esse foi o segundo post da Série Copa do Mundo. O próximo será sobre a Holanda, cuja camisa da Mantoteca está bem separada aqui. Como tô de folga nessa semana (voltarei para o Brasil no começo de Março), é possível que ele saia rápido. Aguardem!

Um abraço!






sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

[GUIA DE COMPRAS MANTOTECA] Itália

Ok. 1 mês e um dia sem nenhuma postagem... tá na hora de botar pilha no Blog novamente.

Disse que o próximo post seria sobre a camisa da Espanha de 96 (pretendo fazer posts homenageando os participantes da Copa, mas no ritmo que tô administrando a página, acho que só na Copa de 2018 termino a série). Enfim, preferi mudar a postagem para essa "utilidade pública" aos colecionadores.

Estive na Itália entre Dezembro e Janeiro, e de lá voltei com camisas bastante interessantes. Algumas até são verdadeiras relíquias.Vamos começar por Milão, o primeiro lugar por onde passei.


Na foto acima está a Estação Termini de Milão, uma das portas de entrada da cidade. E logo na feirinha que aparece ali na praça em frente ao terminal, tinha um sujeito vendendo camisas originais de alguns times italianos. Tinha camisa da Inter de Milão, da Juventus, todas de temporadas recentes, 2009 pra cá. Até uma camisa de treino do RAJA CASABLANCA (isso porque o Marrocos já ficou pra trás) da Lotto ele tinha pra vender. Mas o que prevalecia era a quantidade de camisas da Seleção da Itália que o homem tinha. As camisas da Squadra Azzurra desde 2008 até as de 2010, todas elas. Mas o que me chamou mais atenção foi a excêntrica camisa azul-claro usada pela Itália na Copa das Confederações de 2009 (que vinha acompanhada de um short marrom), muitos detestam essa camisa, mas gosto muito. Preço? 30 euros, padronizado para todas as camisas da barraca, independente do ano, time ou fornecedora. Acabei levando.






Bem, em Milão não poderia deixar de frequentar o Coliseu local: o Estádio San Siro. Repartido entre Milan e Inter, é obrigatório para qualquer fã de futebol que se preze ir até lá. O museu é muito bacana, contando a história dos dois times, e tem a loja, que vende produtos oficiais dos dois. Como só tinha as camisas atuais dos rivais, a única coisa que acabei levando foi um livro interessante chamado "Secconda Pelle", que conta a história em detalhes da evolução dos uniformes do Milan. É um dos melhores livros sobre camisas de futebol que eu já vi.


Uma das melhores lojas que encontrei em Milão fica atrás do Duomo, a gigantesca catedral da cidade. É a Football Team. Tem as camisas de TODOS os times da Série A Italiana, com o patch oficial da competição. E o melhor: várias camisas em promoção também. O destaque vai para a camisa titular do Parma do ano passado, que estava saindo por aceitáveis 35 euros. Mas acabei não levando nenhuma...



E, claro, em Milão não poderiam faltar as lojas próprias da Inter e do Milan. A da Internazionale foi uma decepção em termos de camisa, nenhum item em promoção. A do Milan, por outro lado, já estava mais atraente, com um setor onde estavam as camisas das outras temporadas. Tinham camisas de 2011/12 (aquela das listras finas) de mangas longas, preparada para a Champions League (o patrocínio da Emirates menor - cumprindo a exigência da UEFA - o patch da bola na manga direita e dos 7 títulos conquistados na esquerda, junto com o "Respect" embaixo), 40 euros, preço mais ou menos, mas como ela tava toda preparada, quase levei. Só não foi porque todas as camisas eram XXL, ficaria parecendo uma túnica rubro-negra em mim.  Tinha a camisa da atual temporada com aqueles "pequenos erros" que fazem o valor despencar (tava por 40 euros tb), mas só tinha tamanho pequeno. A da temporada anterior também estava por 40, e decidi não levar nada, quem sabe em outra cidade aparece algo melhor. As lojas ficam próximas a Piazza del Duomo, inevitavelmente quem vai lá passará por elas.



A próxima cidade onde achei algo interessante foi Florença. O primeiro lugar onde fui foi até o estádio da Fiorentina e logo na frente dele há uma loja da "Viola". Não havia mais as camisas da temporada passada, só as da atual. Então, toquei em frente. O ponto alto mesmo foi numa loja perto da Academia de Artes (onde está o "Davi" de Michelangelo), era uma loja de segunda mão, com um setor no segundo andar só de camisas de futebol antigas. Me senti como uma criança no parque de diversões. Barcelona de 1992, Parma de 1993, Roma de 2001 entre outros uniformes históricos estavam ali. E todos com o mesmo preço: 25 Euros. O estado dos uniformes em geral era impecável. Saí de lá com 3 relíquias: o uniforme-kilt da Escócia de 1995, a bela camisa que a Itália usou entre 86 e 90 da Diadora (com mangas longas) e um uniforme raríssimo da Seleção Brasileira (!), provavelmente de 1984, da Topper. Todos eles por 25 euros! Fotos das aquisições:






Já fiquei satisfeito com essas aquisições pra Mantoteca, mas em Roma provavelmente acabaria sendo tentado novamente se trombasse com outras raridades. Por isso, só fui na loja da Lazio para comprar ingresso para o jogo que rolaria contra a Inter naquele fim de semana (antes que me perguntem: tinha camisa da temporada anterior, mas era a camisa branca que é bem sem-graça). Ao redor do Estádio Olímpico de Roma, várias barraquinhas vendendo camisas da Lazio e da Inter foram montadas. E muitas camisas eram oficiais. Achei a camisa do time azul de Roma quando ainda era fornecido pela Puma (2011/12) por 25 Euros, só que era tamanho P. E acabei comprando a réplica oficial (que é praticamente idêntica a camisa de jogo) do uniforme 2012/13, da Macron. Também por 25 euros.





Depois dessa aquisição, tentei dar um basta na compulsão camiseteira, já que era fim de viagem e o dinheiro já tava quase findado. Foi então que na Via Appia Nuova dei de cara com uma loja da Roma com um Outlet de marcas esportivas ao lado. Já que tinha comprado algo da Lazio, pensei em comprar uma camisa da Roma, mas não foi bem assim. Na loja da Roma só tinha a cara camisa atual e algumas retrôs que não são do foco da minha coleção. No outlet ao lado fui surpreendido com camisas da Lazio da temporada 2003/2004, feitas pela Puma, custando apenas 10 Euros. Aí a compulsão não teve como ser freada, mais uma aquisição. Mas essa, enfim foi a última. E voltei pra Alemanha com mais 6 camisas para a Mantoteca.







Estou tentando achar o endereço da loja Vintage de Florença onde comprei as 3 camisas antigas para atualizar o post futuramente. Espero que essas dicas de mais um Guia de Compras sejam úteis para vocês!

Aquele abraço!